Monday, November 13, 2006

ESPERAN�A � VERMELHA

ESPERAN�A � VERMELHA

do site carta maior - www.cartamaior.com.br

DEBATE ABERTO
Golias e Davis na mídia brasileira
A mídia conservadora quis pautar a eleição brasileira, tanto antes como depois da vitória de Lula. Mas aconteceu o contrário: foi a eleição, seu resultado e seus desdobramentos que puseram a mídia na pauta...
Flávio Aguiar
Aí vem o Saul Leblon com mais uma de suas cartas, a mim endereçadas:

“Meu caro Flávio Aguiar:Os ditos formadores de opinião viram suas opiniões esfarelarem-se sob a pressão de 58,3 milhões de dedos que apertaram o número 13 da urna eletrônica, no segundo turno do pleito de 2006.Estão ainda sob o choque da refrega. Algo que imaginavam não apenas coibir como reverter ao bom leito do voto conservador. Mas não apenas o mar não se abriu à passagem do messias tucano da gestão, tão apregoada por eles, como um oceano de votos afogou linhas editoriais e devolveu detritos do noticioso político ao sol abrasador do verão que sucedeu à festa das urnas.Exala agora de Norte a Sul do país o odor insuportável das coisas podres à espera da necrópsia definitiva que os guardiões da “isenção’ tratam de impedir a todo custo. Os reis estão nus. Mas tentam cobrir-se com os argumentos andrajosos que lhes restaram, esgrimindo-os no vazio da própria perda considerável de credibilidade que têm de enfrentar. Estão correndo atrás do prejuízo, essa é a verdade que não conseguem admitir.Não é propriamente uma novidade. Mas foi preciso um embate que ficará gravado na memória nacional como uma das maiores derrotas sofridas pela mídia conservadora na América Latina, para que as coisas fossem postas no seu lugar. O revés sofrido por ela desta vez, diga-se, só é inferior àquele registrado logo após o suicídio de Vargas (pena que não antes), em 1954, em meio a uma das mais violentas campanhas já desfechadas por órgãos de imprensa nativos contra um governo democraticamente eleito pelo povo.O desfecho trágico então levou multidões a protestar em todo o país. No Rio de Janeiro. veículos de distribuição d’O Globo foram caçados pelas ruas e destroçados por uma massa enfurecida e de alma machucada. Em Porto Alegre a multidão depredou sedes de jornais, de rádios e de partidos conservadores. Houve tiroteio, três pessoas morreram na hora, outros de seus ferimentos depois. Ainda no Rio, a população tentou tomar a embaixada dos Estados Unidos. Carlos Lacerda, a voz do udenismo, que cumpria à risca a missão de semear o golpe, “com gosto de sangue na boca”, como pediu um nostálgico ex-presidente da República neste pleito, precisou exilar-se. O golpe que advogava em 1954 teve que ser adiado por 10 anos.Hoje, no que diz respeito à liberdade de imprensa, a questão hoje é saber o que precisa ser feito para que se consolide um esticão de democracia equivalente àquele conquistado em 1954, mas permanente, que venha para ficar. Não penso, Flávio, em reviver o quebra-quebra de 1954. Muito pelo contrário. Não acredito naqueles que, na esquerda, queiram resolver as questões com a mídia conservadora ou outras na base do sarrafo. Mas temos que ampliar o espaço da democracia: essa é a questão de fundo, é disso que se trata, e é isso que muitos querem evitar.Primeiro, uma nota de esclarecimento: não há nada no horizonte que se possa confundir com uma conjura jacobina para silenciar a mídia. Tampouco se assiste a um movimento antimídia, como querem alguns ventríloquos do primarismo defensivo. É do contrário que se trata. Urge ampliar o espaço da mídia democrática, como medida profilática face ao odor podre exalado dos jornais depois da cobertura eleitoral. A menos que se conceitue como liberdade de imprensa o monopólio da opinião pública nas mãos de meia dúzia de empresas, a vinheta da reação conservadora é inadequada.O fato indisfarçável é que a mídia tentou pautar as eleições. E as eleições botaram a mídia na pauta. Isso muda tudo. O espernear de quem deixou a posição de estilingue para se transformar em janela é compreensível. Em todo enredo autoritário, este é o último trunfo do algoz: transformar-se em vítima.Busca-se a todo custo inverter a maré para lavar o cheiro acre da ressaca eleitoral. Pás e carregadeiras obsequiosas tratam de empilhar sacos de areia conservadora para entupir a trinca aberta no monopólio midiático. Sintomático nesse sentido é que a Comissão de Constituição e Justiça do Senado decidiu votar, repentinamente, um projeto de lei que obriga a identificação dos usuários da internet antes de iniciarem qualquer operação interativa (envio de e-mails, criação de blogs etc). O tema pode até ser pertinente. Mas por que discuti-lo só agora?O relator do projeto, sugestivamente, é um tucano, nada menos que o ex-presidente do PSDB, Eduardo Azeredo, pessoa, como se sabe, de experimentada tradição em questões interativas. Coube-lhe a introdução pioneira da interação entre caixas de campanha e agências de publicidade no país. Suspeita-se de que também neste caso seja responsável pela introdução de uma nova modalidade interativa. Seu assessor, José Henrique Portugal, teria interesses pecuniários na montagem dos cartórios virtuais, encarregados de autenticar assinaturas veiculadas no espaço digital, conforme o projeto em pauta. Coisa de alguns bilhões de reais por ano.Com a reconhecida habilidade de sempre o conservadorismo trata portanto de fechar frestas e se antecipar àquilo que a dispersão do ambiente digital ainda não conseguiu conceber. Ou seja, quer consolidar desdobramentos práticos da batalha das urnas. Linhas de ação unificadoras que sem prejuízo da autonomia, consolidem e dêem prosseguimento à frente digital espontânea formada nestas eleições. A ela deve-se em alguma medida o desnudamento de uma plataforma que percorreu toda a cobertura da grande imprensa neste pleito com quatro objetivos explícitos: a) derrubar Lula; b) derrotar Lula; c) disseminar a inutilidade do voto em Lula, prestes a sofrer um impeachment d) impor a Lula, se reeleito, a agenda econômica do candidato derrotado.O teste de campo mostrou a relevância do pool digital democrático que se opôs a esse bombardeio. É contra essa relevância que se movem agora os interesses contrariados da política e da grande imprensa. Para enfrenta-los falta vencer um ponto cego do qual ainda padece o ambiente digital.O material circulante na Web precisa ser consolidado em algum momento, em algum lugar. Trata-se de um requisito para que possa assumir uma feição definida, adquirir credibilidade inquestionável e servir de contrafogo esclarecedor à formação da opinião pública.O episódio do dossiê Serra/Vedoin traz lições preciosas nesse sentido. A reportagem de Raimundo Rodrigues Pereira na revista Carta Capital sistematizou informações já disponíveis na Web --inclusive o roteiro do Dossiê do Dossiê publicado originalmente em Carta Maior. Raimundo adicionou a essa base de dados novas e preciosas informações, catalisando assim um diálogo permanente com blogs, sites, correntes etc. Foi esse conjunto interativo que rompeu o dique de silêncio criado pela grande mídia em torno do assunto. E obrigou diferentes jornalões a abordarem um tema que já invadia suas páginas pela fresta estreita das seções de leitores, refletindo o espraiamento do debate na opinião pública. A mesma pauta impôs-se à Globo que desde então não parou mais de se explicar. Embora não consiga dar uma explicação convincente sobre por que escondeu o maior desastre da viação aérea brasileira, no dia em que concentrou seu principal noticioso nas imagens do dinheiro do dossiê.Como disse domingo, na Folha, o ouvidor-geral Marcelo Beraba:”(...) Certamente a internet teve um peso importante porque criou, e não pára de expandir, o novo espaço de circulação e enfrentamento de idéias sobre o papel da mídia e sobre a cobertura específica desta eleição. É um debate que os meios tradicionais têm dificuldades de acolher...”A experiência vivida deve servir para alguma coisa. Uma tarefa que se impõe agora é buscar pontos de coagulação que permitam conferir sistematicidade, através de registros definitivos, a esse enfrentamento de idéias, de modo a superar a dispersão natural da Web.Não necessariamente isso precisa ser feito através de um veículo impresso –embora a prática demonstre a sua eficácia como caixa de consolidação. Mas talvez o mais viável, inicialmente, seja elencar “temas-ponte” que entrelacem diferentes mídias através de agendas prioritárias. Por exemplo: campanhas como a da democratização dos meios de comunicação, que ganhou urgência inquestionável a partir deste pleito. Ou investigações jornalísticas mais audaciosas e caras, que poderiam ser bancadas por um pool de veículos de natureza digital e impressa. Ou quem sabe a criação de um bureau ambulante para produção de reportagens na América Latina. Flávio, um tema cuja cobertura na grande imprensa tem carecido de objetividade é esse da queda do avião da Gol. Essa tragédia terrível, com mais de 150 mortes, exige um jornalismo investigativo que as redações tradicionais estão completamente desacostumadas a fazer. A reconstituição dessa história passa pela averiguação do vôo do Legacy, da avaliação do controle aéreo brasileiro, pela defesa apressada dos pilotos feita pelo jornalista norte-americano que estava a bordo do jatinho, da decisão da Globo de não colocar a notícia no ar no JN do dia 29, e por aí vai, até chegar à greve do zelo feita pelos controladores aéreos durante o feriado de Finados, e ainda teremos novos desdobramentos.São apenas idéias à procura de um caminho. O mais importante a reter, todavia, é que mídia digital furou o cerco conservador nestas eleições e provou sua relevância na formação da opinião pública. Falta agora vencer certos condicionantes estruturais que ainda desafiam sua maioridade jornalística. Mas ela nunca esteve tão perto de dar o passo seguinte da sua história. Isso é tão importante, Flávio, quanto a vitória de Daniel Ortega na Nicarágua e a derrota republicana nos Estados Unidos. Um abraço, Saul”.
Flávio Aguiar é editor-chefe da Carta Maior.

No comments: