Thursday, December 14, 2006

ENTREVISTA DE MARCIO POCHMANN NO BLOG DO ZÉ DIRCEU

Márcio Pochmann 11/12/2006 19:49
Brasil precisa criar empregos de salários mais elevados
O economista Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp. Nesta entrevista, ele comenta porque a maioria das vagas criadas nos últimos anos é de baixos salários e discute o esfarelamento da classe média.

[ José Dirceu ] Seus trabalhos mostram que a maioria das vagas criadas, nos últimos, anos são de baixos salários. Ao mesmo tempo, a pobreza diminuiu 19,8% no primeiro mandato do governo Lula. As regiões mais pobres estão crescendo mais do que a média do país. Como se explicam essas duas lógicas?

[ Marcio Pochmann] É notória a redução da proporção de pobres no Brasil, especialmente se utilizar como medida um indicador limitado de pobreza. Tradicionalmente no país, utiliza-se, como metodologia de apuração da pobreza, uma linha monetária estabelecida a partir de uma cesta básica de consumo. Nesse caso, são, fundamentalmente, os Estados Unidos e o Banco Mundial que fazem dessa medida uma apuração da pobreza absoluta. Mas há, também, a experiência européia de utilizar, como medida, a apuração da pobreza relativa, ou seja, considerando não apenas o custo mínimo de uma cesta de sobrevivência, mas o padrão de riqueza produzido no país. Assim, considera-se, como medida oficial de pobreza, a desigualdade que decorre do fato de haver pobres relativamente ao padrão de riqueza praticado em cada sociedade. Nesse sentido, no Brasil, considerando-se quem ganha até meio salário mínimo per capita familiar (pobreza absoluta), percebe-se que os pobres estão concentrados nas regiões Norte e Nordeste, e, por conta de uma série de iniciativas públicas, houve redução importante - embora em menor ritmo que na década de 1970, quando a economia nacional crescia 9% em média por ano – da taxa de pobreza.

[ José Dirceu ] Esse indicador é limitado?

[ Marcio Pochmann] Não. Mas precisamos considerar também o indicador mais robusto de pobreza que é o relativo, associado ao padrão de riqueza do Brasil. Se aplicado o critério relativo de pobreza, que deriva da proporção das pessoas com rendimento abaixo de 50% da renda mediana do páis, seria o Centro-Sul brasileiro com maior proporção de pobres, uma vez o padrão de riqueza no Sudeste é ainda muito superior ao do Nordeste. Em síntese, a taxa de pobreza no critério relativo não apresentou redução.

De todo modo, independentemente do critério adotado para a aferição do nível de pobreza, o fato concreto é que a situação de relativa melhora na camada de menor renda decorre, inquestionavelmente, do conjunto de políticas que vem sendo estabelecido desde a Constituição Federal de 1988. Seja por medidas de garantia de renda aos trabalhadores, como o seguro desemprego e salário mínimo, com recuperação importante desde 1995, seja por medidas de transferência de renda, como a previdência social, que equilibrou os valores de aposentadoria e pensão de trabalhadores rurais e urbanos, a assistência social, com a introdução do Peti (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), da LOAS e de vários programas de renda que culminam, inteligentemente, com o Bolsa Família. Tudo isso garantiu e e vem protegendo a renda dos 40% mais pobres.

[ José Dirceu ] Isso é muito pouco, não ?

[ Marcio Pochmann] É positivo, mas poderia ser muito mais. Observa-se que a queda na desigualdade da renda do trabalho no Brasil (que representa cerca de 36% do PIB enquanto, em 1980, era 50%) ocorre também devido à perda do poder de compra das rendas da classe média alta. Note bem: a PNAD (Pesquisa Nacional de Amostragem por Domicílios), que é uma excelente investigação nacional, consegue medir, basicamente, como perfil superior da renda do trabalho, o que se poderia definir como rendimento de classe média alta ocupada, uma vez que o rendimento médio do decil mais alto foi de R$ 3.600,00, em 2005. Se não tomar cuidado com isso, os ricos no Brasil seriam os trablhadores bancários, petroleiros, funcionários públicos, professores unversitários, entre outros. É claro que o rendimento dos ricos não faz parte da pesquisa. Na realidade os ricos se escondem.

Sociedade polarizada entre
muitos ricos e muitos pobres

Ademais, cabe acrescentar que o ridículo crescimento da renda nacional, inferior aos 3%, ao ano, nos últimos 25 anos, aliado ao modelo econômico, que se especializa na produção e exportação de bens de baixo valor agregado e pouco conteúdo tecnológico, não há como gerar empregos de alta remuneração. O resultado disso é a construção de uma sociedade muito polarizada entre os extremamente ricos e os extremamente pobres, já que os postos intermediários vêm se reduzindo de uma maneira bárbara. Não é possível gerar, com esse modelo econômico, empregos de classe média. Isto é portador de um padrão de desenvolvimento menos injusto? Eu não não acredito nisso.

Por outro lado, o vigor do regime democrático no país permitiu constuir uma proteção de políticas sociais, que protege os mais pobres. Assim, se o Brasil voltasse a recuperar o crescimento econômico de forma sustentada, com 5 ou 6% ao ano, protegendo o segmento mais baixo, poderia haver algum salto de qualidade. Mas isso pressupõe o crescimento econômico de forma acelerada e uma revisão do modelo econômico, porque o Brasil está perdendo uma enorme oportunidade do ponto de vista da sua melhor inserção na economia mundial. Nada contra produzir e exportar soja, minério de ferro, frango, mas isso é insuficiente frente às necessidades internas, bem como as oportunidades que o país tem, em termos do enriquecimento de suas cadeias produtivas e inovação tecnológica em novos setores estratégicos ao desenvolvimento nacional.

Inegavelmente o Brasil tem oportunidade aí. Mas precisa de uma política industrial voltada a indução do enriquecimento e inovação das cadeias produtivas para, com isso, ampliar o leque das oportunidades de trabalho, inclusive com nível de rendimento superior e menor jornada de trabalho.

[ José Dirceu ] Você acredita que para crescer mais e melhor, a questão dos juros é determinante? Em tese, reduzindo os juros diminuiria o serviço da dívida interna e haveria condições de elevar o investimento público, que gira entre 0,5 e 0,75% do PIB, para 2 a 3% do PIB.

[ Marcio Pochmann] Sem dúvida, a questão dos juros é um dos gargalos para desatar o nó da semi-estagnação que aprisiona a economia nacional por mais de 25 anos. Mas não é o único elemento disso. A política monetária é estratégica no estabelecimento de um padrão de desenvolvimento, mas insuficiente. É preciso combinar um novo padrão de política públicas, capaz de articular e conceder matricialidade às ações no âmbito industrial, serviços e agropecuário, bem como valorizar a política comercial e a alteração da estrutura tributária; enfim, um conjunto amplo coordenado de muitas medidas.
Por conta disso, parece limitado concentrar tudo na questão dos juros. Certamente os juros reais altos para adminitrar a crise brasileira resultam no silêncio dos cemitérios. Sim, no cemitério não há barulho, mas parece que não há vida.

No Brasil, também parece se gerenciar a crise do padrão de desenvolvimento do capitalismo brasileiro com a semi-estagnação econômica, que produz o silêncio na produção e o medo dos trabalhadores de perder o emprego. Os únicos que fazem barulho são os ganhadores do ciclo da financeirização da riqueza, que têm o direito da riqueza patrocinado pelo Estado, agindo como uma espécie carro-fúnebre a levar os mortos ao cemitério.

Em síntese, há uma aliança política estranha que permite, de forma atribulada, gerenciar a crise do desenvolvimentismo brasileiro, com base no apoio dos muito ricos como o dos extremamente pobres, beneficiados pela rede de proteção social.

[ José Dirceu ] Isso não tem sustentação a longo prazo. De qualquer forma, todas as políticas que podem mudar a qualidade do desenvolvimento brasileiro, do próprio processo industrial no país, da inserção do Brasil no comércio internacional e no fluxo de investimentos, foram retomadas no governo Lula. O papel dos bancos públicos e dos bancos de fomento. A limitação está, exatamente, na falta de recursos públicos para investimento, tanto a política industrial como a de inovação da ciência e tecnologia pecam por isso.
Também o destrave da infra-estrutura do país, principalmente, rodovias e portos, já que, nas ferrovias, a iniciativa privada vem investindo.

[ Marcio Pochmann] Mas parece que a malha ferroviária, por exemplo, volta-se para tirar produtos do Brasil para o exterior. Os ingleses vieram fazer ferrovia aqui no século XIX, justamente para escoar matéria-prima para fora. Isso é padrão do século 19, quando o Brasil era a maior fazenda produtora de café do mundo, assentada no trabalho escravo.

[ José Dirceu ] Mas o mercado interno do país também ganha dinamismo, se você tiver outras políticas. Você pode combinar as duas coisas, crescimento sustentável de exportações, mesmo que seja exportação de semi-manufaturados, produtos agrícolas, minerais e matérias primas. Com o desenvolvimento do mercado interno, você pode consolidar o processo industrial que não seja só exportador. Isso depende das forças dinâmicas que estão na sociedade, e as forças mais dinâmicas são as classes populares do mundo do trabalho, dos serviços e do setor produtivo. Esse debate está escondido, houve uma vedação do debate econômico.

Educação tem que ser combinada
com crescimento do emprego

Em relação à educação gostaria de te perguntar o seguinte. Durante muito tempo, se acreditou que bastaria dar oportunidade de educação para se combater a miséria. A mobilização social fortíssima que vimos na França, que envolve também a questão da migração, mostra que a educação não é suficiente para superar a exclusão. Aqui no Brasil, nós estamos vivendo isso também, em menor medida?

[ Marcio Pochmann] Ao participar de uma conferência sobre educação técnica e profissionalizante no Brasil percebi como parte dos educadores, por exemplo, pensam a educação de forma isolada, muitas vezes desarticulada das alianças necessárias com a sociedade e com o mundo da produção e do trabalho. Como tradicionalmente ocorre em outras áeras, pensa-se setorialmente, como um fim em si mesmo. Observe-se que, no caso da educação, a crise tenderá a ficar mais intensa, na medida em há avanços na escolaridade. Pois, sem expansão da produção e reformulação do modelo econômico, a discriminação torna-se muito maior, simultaneamente ao esvaziamento dos postos de trabalho e de formas mais consistentes de inclusão nesse sentindo. Lamentavelmente no Brasil, pobres e negros quanto mais estudam, mais riscos enfrentam de ficar desempregados, justamente porque os postos de maior escolaridade acabam fazendo parte de uma espécie de rede social, que viabiliza o pouco emprego para pessoas de mais renda.

[ José Dirceu ] Uma elite que se auto-reproduz e se protege de intrusos.
[ Marcio Pochmann] Um monopólio de uma elite branca brasileira. A educação continua sendo isso num certo sentido... Agora, se assiste a uma crise maior de reprodução da classe média, porque o desemprego cresceu muito entre os níveis de maior escolaridade. A estimativa que tenho é que algo entre 140 mil ou 160 mil pessoas estão saindo do Brasil todos os anos e, em geral, são pessoas de maior escolaridade. Alguma coisa como 2,5 milhões de brasileiros estão fora, uma parte no Japão, outra na Europa e Estados Unidos.
Mas à moda chinesa, que está em alta, precisa-se considerar a crise não somente como problema, mas como possiblidade de mudar o caminho. É necessário repensar esse período excepcional que estamos vivendo. É a primeira vez que o Brasil participa de um ciclo de revolução tecnológica com algum grau de proximidade no processo de transformação da base científica e tecnológica. Nas revoluções tecnológicas anteriores, como entre 1750 e 1810, quando foi descoberto o tear mecânico, a ferrovia e o motor a vapor, o Brasil estava completamente fora do processo, pois ainda era colônia de Portugal. Na segunda revolução, entre o fim do século XIX e começo do XX, com os descobrimentos do motor a combustão, do petróleo, automóvel, entre outros, também se deu num quadro em que éramos praticamente prisioneiros do trabalho escravo e ainda na transição do Império para uma República. Tudo isso impôs um retardamento não desprezível. O Brasil, por exemplo, começou a montar a sua indústria automobilística a partir da segunda metade dos anos 50 - setenta anos depois do automóvel ter sido inventado. Agora, inegavelmente, o Brasil apesar dos percalços, tem uma participação seja na biotecnologia, na telemática, nós temos um espaço. Se olharmos nesse início do século, nós temos uma oportunidade inédita de novo, porque os ganhos da inovação tecnológica não estão totalmente monopolizados. Não sei se, do ponto de vista político, nós teremos capacidade de aproveitar essa possibilidade técnica.

A segunda coisa importante, em termos de singularidade do período que vivemos, é a passagem da sociedade urbano-industrial para a sociedade pós-industrial, de serviços, que vem associada a uma melhoria no enfrentamento de doenças, que faz com que a expectativa de vida aumente brutalmente. Esse contexto de revolução tecnológica, que permite ganhos de produtividade inéditos e intensos com aumento da expectativa média de vida, nos coloca numa situação e numa oportunidade técnica, em primeiro lugar, da jornada de trabalho não ser maior do que quatro horas por dia e três dias por semana. Assim, como não há razão técnica para alguém ingressar no mercado de trabalho antes dos 25 anos de idade. Isso pode parecer idílico, como talvez também fosse se alguém em 1850, numa fábrica têxtil inglesa ou francesa, dissesse ao contingente dos trabalhadores: “não há razão técnica para vocês trabalharem 16 horas por dia, nem mesmo não há razão técnica para ter essa quantidade de crianças trabalhando a partir dos 5 ou 6 anos de idade, porque agora o capitalismo industrial oferece ganhos de produtividade perfeitamente compatíveis com o trabalho de 8 horas por dia, 5 dias da semana e de não mais começar a trabalhar antes dos 15 anos de idade”. Foram as razões políticas que levaram a se ter um outro patamar de civilidade no trabalho e de ingresso no mercado de trabalho a partir dos avanços técnico produzidos pelo modo de produção capitalista. Mas isso demorou um pouco, até se acumularem forças sociais e políticas para, através da universalização do voto e das lutas trabalhistas, alçar um mudança significativa.

Nos dias de hoje, os ganhos de produtividade, sobretudo, do ponto de vista do trabalho imaterial estão num patamar bem acima do verificado nas duas últimas três décadas. Frente a isso, é plenamente possível se fazer um outro arranjo social, com o objetivo de remanejar a jornada de trabalho e de postergar bem o a idade de entrada no mercado de trabalho. Aliás, no Brasil, os filhos dos ricos ingressam no mercado de trabalho somente a partir dos 25 anos de idade, enquanto os filhos dos pobres estão condenados, por não terem outra alternativa de inclusão social, a ingressarem muito cedo no trabalho.

Em síntese, há uma possibilidade técnica de alterar profundamento o padrão de trabalho e sua relação com a vida humana. Mas para tanto, são necessárias novas condições políticas que possibilitem a formação de uma grande convergência em torno da alteração da sociabilidade laboral. Por termos uma enorme fragilidade na organização social e debilidade na estrutura partidária, é um desafio não desprezível a conformação de convergência nacional que atue em torno das possibilidades do Brasil.

A universidade se constitui
em monopólio como tal

[ José Dirceu ] Além de militante social e de ter exercido cargos públicos, você é, também, um homem da academia. E a universidade? O problema técnico da aliança empresarial para o desenvolvimento científico e tecnológico do país, para uma revolução educacional, passa pela universidade. Quando começamos a debater a lei de inovação, eu senti, na universidade, uma resistência a qualquer política de financiamento privado da universidade através de fundos de investimento para o desenvolvimento tecnológico, ou a mudança da pesquisa e do papel do pesquisador. A solução seria o governo dar três vezes mais recursos para a universidade. Você acha que a universidade está à altura desses desafios que você está colocando para o país?

[ Marcio Pochmann] Considerando o bloco de países do terceiro mundo, percebe-se que o Brasil é um dos poucos países que tem ainda uma classe média universitária significativa. O Max Weber fala que o capitalismo produz monopólios e reproduz desigualdades.

Nesse sentido, a universidade constitui um monopólio como tal. Para ser envolvida, é preciso a sua mobilização, e não se percebe a constituição de uma agenda capaz do seu envolvimento pleno. Que projeto grandioso que temos hoje para envolver a comunidade universitária? Combater a pobreza? Parte do conjunto da classe média nacional depende justamente da existência da pobreza para ter um elemento de diferenciação. Imagine se fosse um país menos desigual, com um salário mínimo de R$ 1.600,00 (com base na Constituição de 1988 e estima o Dieese), a classe média poderia estar mais restrita ainda do que está hoje em termos do seu padrão de gastos conspícuos, com refeições sofisticadas e um verdadeiro exército de serviçais nas atividades familiares (domésticas, seguranças, caseiros, baby sister, personal training, motoristas, professores particulares, entre outros)

De outro lado, a classe média encontra-se impedida de participar do processo em curso de globalização do padrão de consumo e desterritorialização da riqueza, cada vez mais centrado no avanço dos ricos. Pela primeira vez, os ricos podem legalmente pegar o dinheiro e colocar no exterior, atuando, inclusive, contra os interesses do conjunto do Brasil.

[ José Dirceu ] Já são US$ 150 bilhões lá fora declarados, 13 mil pessoas jurídicas e físicas detêm 70% da dívida interna ... Mesmo assim, isso não justifica a posição da universidade. Os professores teriam condições de lançar uma agenda para si próprios e para o país?.

[ Marcio Pochmann] No meu modo de ver, a agenda até já existe, que é o documento chamado Esperança e Mudança, que foi protagonizado pelos reformistas do movimento pela redemocratização nacional. Está tudo lá. Basta ter força política para colocar em prática.

Têm as reformas econômica e política que não forma feitas. A única coisa que avançou mais ou menos foi a reforma social que, penso, insustentável tendo em vista o circuito em que estamos hoje. O que se vê é uma pressão significativa sobre a classe média, com mais impostos e redução no atendimento de bens e serviços públicos.

[ José Dirceu ] Um fato preocupante que você tem apontado é o esfarelamento da classe média. Entre 2000 e 2004, 86% dos empregos ofertados com carteira assinada ocorreram na faixa de um a dois salários mínimos. O jovem da classe média, hoje em dia, tem muito menos perspectivas de reproduzir o padrão de vida dos pais. Por que isso está ocorrendo?

[ Marcio Pochmann] O crescimento da produção e o modelo econômico não possibilitam a geração de empregos suficientes para a sustentação da classe média. Os postos de trabalho que são gerados são de pouca quantidade frente ao universo de pessoas que chegam ao mercado de trabalho com maior escolaridade.

[ José Dirceu ] Mas me parece uma contradição, se ela está pressionada por condições de vida piores, a tendência, principalmente entre a classe média intelectualizada, seria reagir para criar uma pauta onde ela possa recuperar a sua qualidade de vida.

O individualismo complica
saídas para a classe média

[ Marcio Pochmann] É preciso entender a sociedade brasileira e o padrão de individualismo que nós temos. Como a classe média reage frente a isso? Ela se organiza e forma convergência de lutas? Não me parece isso.

Veja o caso da Espanha no atentado à bomba, na véspera das eleições, quando foram feitas importantes manifestações, com a classe média na rua. Aqui, no caso da violência, por exemplo, se alguém for assassinado por bala perdida, a classe média, se sair à rua vai ser de roupa branca, pedindo paz, como se isso fosse possível sem mudar a própria sociedade. Por isso, frente à violência, nós colocamos muros, cerca elétrica, sendo que cada um se volta pra si próprio. Na já acirrada competição, ganha maior evidência o individualismo. Ao invés de se criar uma alternativa para construir uma agenda positiva, ocorre o inverso.

[ José Dirceu ] Voltando ao esfarelamento da classe média. Esse parece ser um problema de âmbito maior, que atinge os países desenvolvidos, em decorrência da tecnologia digital combinada com o avanço da China e da Índia na oferta de produtos e serviços, apoiada em salários baixos.

[ Marcio Pochmann] A classe média é produto da sociedade urbano-industrial. O assalariamento na grande empresa é que gerou a possibilidade de expansão da classe média, que dá um salto a partir da década de 1950, sobretudo, com o avanço do Plano de Metas e do milagre econômico dos militares.

Hoje, os parâmetros para expansão da classe média têm muito mais a ver com a divisão internacional do trabalho. Por um lado, há um trabalho muito mais de concepção e elaboração, mais criativo e mais bem remunerado, como no caso do analista simbólico, que cresce significativamente com os investimentos em novas tecnologias e enriquecimento das cadeias produtivas. Por outro, há o trabalho de execução, mais simplificado – como a produção do calçado em casa, em qualquer país.

Hoje, cada nação se insere na economia global fazendo suas escolhas: é o trabalho de execução ou o de concepção? Quanto maior espaço para o trabalho de concepção, maior a oportunidade para reprodução da classe média. Os Estados Unidos estão perdendo praticamente toda a parte relativa aos produtos de execução – como as atividades de telemarketing que se transferem para vários países, até para o Brasil, mas concentram parte importante dos trabalhos que têm maior valor agregado, maior remuneração.
Nesse sentido, há uma fantástica transformação na estratificação social nacional e mundial, cujos espaços de reprodução da classe média não são mais os mesmos. Por isso, é fundamental o caminho que cada país escolhe.
No Brasil há um quadro crescente de profunda polarização social. Vai ser cada vez mais difícil administrar um país com muito pobre e muito rico, faltando classe média. Como se juntam os pontos de contatos e convergências? É um desafio enorme.

[ José Dirceu ] Concordo com você, que ainda estamos longe do mérito da questão. O debate econômico do desenvolvimento no Brasil ainda é muito pobre. Ficamos rodando em torno do superávit de 4,25, com meta de inflação baixíssima e com juros altos.

Num cenário de globalização dos baixos salários, de pressão da concorrência chinesa e dos baixos salários, é sustentável sustentar o nosso modelo de 13º salário, férias, fundos de garantia para a pequeno e micro empresa, para as grandes?

Geração de empregos de baixa qualidade
põe em xeque conquistas trabalhistas

[ Marcio Pochmann] Parece-me que a CLT vai se tornando insustentável a medida em que prevalece o atual modelo econômico de geração de emprego de baixa qualidade, pois o nosso padrão de competição tende a se concentrar, basicamente, no já reduzido custo da mão-de-obra. Esse modelo coloca em cheque a continuidade da CLT, não que ele vá destruí-la, necessariamente. Mas, na medida que que o país começa a ser mais dependente do mercado externo, com nos dias atuais, a CLT vem sendo cada vez mais questionada.
Por isso, interessa considerar a estrutura produtiva que nós temos. Em que medida a pequena e micro empresa têm ou não capacidade de pagar salários equivalentes a uma grande ou média empresa? Como se sabe, a questão mais importante, hoje, não é a salarial. No setores dinâmicos do país, o custo do trabalho no produto final é algo abaixo de 107 %. O que mais vem pesando são os custos com tributação, infra-estrutura, entre outros. Em síntese, o que está em jogo é a inexistência de uma ampla rede de intervenção voltada ao andar mais baixo da economia nacional, formada pelos pequenos micro e pequenos negócios. Agora, com a Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, abre-se um espaço importantíssimo para compras públicas vinculadas ao andar de baixo da economia nacional.

Então, há condições de contornar os custos trabalhista sem, necessariamente, alterar o padrão de remuneração. Gostaria de destacar que parte importante do que se chama informalidade não é decorrente da ilegalidade, de gente que não é contratada formalmente. Em resumo, ela é formada por autônomos, pessoas que trabalham por conta própria, gente que não tem acesso à CLT e, possivelmente, nunca vai ter. Falta, por isso, a constituição de um estatuto do trabalhador não assalariado, com o objetivo de melhorar o seu padrão de vida e trabalho, bem como garantindo a isonomia na competição.

[ José Dirceu ] A partir de sua experiência na prefeitura de São Paulo, na gestão Marta Suplicy, com políticas sociais para a periferia da maior cidade do país, como vê a questão dos jovens?

A juventude pobre
é um dos maiores desafios

[ Marcio Pochmann] Nós temos no Brasil mais de 5 milhões de jovens de 16 a 24 anos de idade que, lamentavelmente não trabalham, não estudam e nem procuram trabalho. Onde estão esses jovens? Acredito que seja uma geração quase perdida, um enorme desafio de ser incorporada à sociedade e ao mercado de trabalho, uma vez que ela foi se constituindo sem a identidade e sociabilidade no trabalho, sem a trajetória profissional. Como recuperar isso? O que conseguimos em São Paulo, de certa maneira, foi uma aproximação muito bem articulada, do ponto de vista do setor público, aos jovens vinculados a famílias mais ou menos organizadas. Já em relação às famílias desorganizadas, formadas por famílias monoparentais -- um adulto e uma criança – foi mais difícil, embora com resultados também muito interessantes em termos de políticas públicas.

Não podemos esquecer que o Brasil é um país com a quinta maior juventude no mundo. São mais de 35 milhões de jovens, sendo que destes, 17 milhões estudam e o outros 17 milhões não estudam. Dos que estudam, 56% estão fora de série. É fundamental uma política pública integrada e articulada no plano territorial. Reconheço que o governo Lula conseguiu colocar a juventude na agenda do governo, o que não havia antes. Havia um diagnóstico inicial de que não poderiam ser políticas fragmentadas, que era preciso um grande programa de convergência nacional, que envolvesse pelo menos 4 milhões de jovens ao ano. Mas o resultado não foi bem assim. Houve avanços, mas também uma certa reprodução do passado, com a reprodução de uma fragmentação enorme, cada ministério com o seu programa, que até podem ser interessantes, como a escola de fábrica, o primeiro emprego, a Casa Brasil, os Pontos de Cultura, entre outros. Mas faltou articulação, uma visão totalizante. O jovem precisa disso tudo, de educação, emprego, cultura, saúde

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