PT: REAFIRMAÇÃO OU REFUNDAÇÃO
Flávio Loureiro e Marcel Frison
Uma das tarefas que nos propomos no III Congresso do PT é constituir uma
hegemonia de esquerda no partido. Para tanto, é preciso tempo e acúmulo
político e social. Isso faz parte da disputa política e nenhuma hegemonia
se instala de forma imediata.
A velha Articulação Unidade na Luta, metamorfoseada em "Campo Majoritário",
levou praticamente dez anos para alterar profundamente um conjunto de
valores que faziam parte do que se chamaria de "ideologia" petista,
construída, em especial, após o V Encontro Nacional, em parte, reafirmadas
no VII Encontro, no I Congresso e no VIII Encontro Nacional.
Mas será que alterou totalmente? Será que destruiu de forma definitiva os
pilares que edificaram o PT, seu caráter socialista, classista,
revolucionário e democrático?
Este é um dilema que permeia o debate sobre a "refundação" ou não do PT.
Neste tema, o movimento que fazem a tendência Democracia Socialista e o
ministro Tarso Genro, através do documento "Mensagem ao partido", guardam
no mínimo ambiguidades.
A primeira afirma a refundação, numa perspectiva de conduzir o partido à
esquerda, pressupondo a falência total dos paradigmas originais do partido
(ou quase isto).
Já Tarso Genro parte da mesma premissa e de outra muito perigosa, a de que
faliram os paradigmas que se formaram a partir da história da luta de
classes do século 19, até agora. E tenta construir outros paradigmas
modernos (ou pós-modernos) à luz das profundas mudanças (e reais) ocorridas
no mundo.
A refundação de Tarso, e ele muitas vezes é claro nesse debate, pressupõe a
negação do passado e a construção de um PT totalmente novo, alicerçado
naquilo que afirma ser uma visão realista do que seja o PT e as
possibilidades concretas de uma política de esquerda no mundo atual.
Avaliamos que, embora o serviço realizado ao longo dos quinze anos de
hegemonia do campo ex-majoritário, sob a batuta de José Dirceu, seja muito
profundo, e os desvios éticos e políticos são suas conseqüências mais
tangíveis, o PT, perante a classe trabalhadora e o povo brasileiro, não se
descaracterizou por completo, não perdeu suas raízes, não perdeu seu
sentido histórico.
A força e a esperança da sua recuperação, de forma dialética, está nos seus
pilares fundamentais. Pilares que permanecem, por que permanecem, mesmo
levando-se em consideração as mudanças globais, os elementos estruturais e
as contradições da sociedade brasileira que levaram à sua fundação.
E se há base concreta nessa reflexão, que pode ser simplista e limitada
perante as tarefas que se colocam para a realização dessa reafirmação dos
valores fundantes do PT, é possível constituir uma hegemonia de esquerda no
partido, que não será igual a do passado, tampouco será o nosso "programa
máximo".
Porém, é claro, no curto prazo, esta é uma hipótese, um cenário entre
tantos que se desenham para o III Congresso do PT, e por isto mesmo o
posicionamento à esquerda, e a apresentação clara do ideário geralmente
identificado com a "esquerda petista", mas na verdade compartilhado por
muito mais gente, é correto estrategicamente.
Do contrário, o resultado seria uma geléia geral que fatalmente conduziria
o partido e a sua militância, a um mero acordo de governabilidade interna.
O erro que muitas vezes foi cometido, de subverter os interesses
estratégicos aos táticos, não pode ser cometido neste momento de debate de
idéias.
Contudo, não se constrói uma tática sem levar em consideração que os outros
jogam, que implementam seus movimentos táticos, é neste terreno que, na
nossa modesta opinião, essa reflexão precisa ser aprofundada.
Como evitar a construção de um novo centro de direção política no partido,
calcado no pragmatismo e diluído política e ideologicamente, como foi o
campo ex-majoritário?
Na opinião da Articulação de Esquerda, o primeiro passo é disputar o
próprio caráter do III Congresso, não como instrumento mágico capaz de
"curar as feridas" ou "reafirmar os valores éticos do petismo", mas sim
como momento de reconquista do PT pela classe trabalhadora, de reafirmação
dos seus paradigmas fundantes, de recondução ao seu papel histórico e de
reafirmação de seu caráter socialista.
Disputar um III Congresso à quente, elevando ao máximo a sua politização e
polarizar política e teoricamente o PT. Afinal de contas, a esperança é
vermelha.
>Flávio Loureiro, membro suplente do Diretório Nacional
>Marcel Frison, do Diretório Nacional do PT
Thursday, February 08, 2007
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