AS GUERRAS SERTANEJAS DE CANUDOS E CONTESTADO – PARTE 01.
Emilio Gennari, fevereiro de 2007.
Apresentação.
Quando o peso da exploração aumenta a carga imposta à classe trabalhadora, muitos pensam em desistir da luta. Pouco a pouco, o desânimo eleva o número de seus adeptos e alimenta em setores cada vez mais amplos da população o desejo de deixar as coisas acontecerem.
Por não se oporem à correnteza criada pelos fatos, as pessoas se iludem com a possibilidade de serem poupadas de sua força destruidora, sem perceber que a resignação fortalece o hábito de deixar passar em silêncio as injustiças que preparam novos e mais pesados sofrimentos.
Preso neste vórtice que arrasta as frágeis esperanças de futuro, o senso comum procura refúgio na indiferença, na repetição incansável de que as coisas são assim porque é natural que assim sejam, ou nas lamúrias típicas de quem espera por uma mudança da qual quer aproveitar os benefícios, mas em cuja construção não está disposto a se envolver.
Ao se desvincular de tudo o que extrapola a rotina diária entre casa, trabalho, escola, religião e lazer, o mundo do cidadão comum se fecha diante de quem procura alertá-lo dos perigos iminentes. O seu campo de visão se encurta e, dobrado sobre si mesmo, prefere não ver, não saber, ficar alheio a tudo o que pode questionar as poucas e débeis seguranças que lhe servem de proteção.
Mas os problemas persistem. Tornam-se cada vez maiores. Avolumam-se a tal ponto que não há solução sem mais dores e sofrimentos. Aflito, o senso comum busca ignorar o que cresce à sua volta, pois, em sua visão mágica, o simples lembrar dos perigos ganha as feições de uma ameaça direta à sua existência.
Felizmente, até mesmo quando o sonho de lutar por uma sociedade da qual seja banida toda exploração do homem pelo homem parece algo totalmente fora de moda, ou quando as elites se desdobram para desfigurar o compromisso de quem se nega a ser vítima silenciosa de sua dominação, há sempre um pequeno barco que, apesar de sua fragilidade, teima em desafiar a correnteza. Nele remam sem descanso homens e mulheres que procuram despertar os sentimentos de dignidade e rebeldia que, aos poucos, plantam na garganta dos de baixo a vontade e a força de dizer "Não!" às investidas que negam a possibilidade de um futuro melhor para todos.
Alimentada pela memória e tradição de luta do passado, esta obstinada tripulação usa a história como mapa. Ao resgatar os desafios já enfrentados por sua classe, nossos navegantes buscam aprimorar a percepção dos limites e das possibilidades do presente, certos de que os oprimidos abrirão os olhos para enfrentar as corredeiras aparentemente instransponíveis que hoje abastecem a opulência e a dominação de seus opressores.
Cientes do desafio imposto por esta tarefa e diante dos parcos meios de que dispõem, nossos navegantes encarregam uma coruja de trazer até nós o resultado de seus estudos sobre as guerras sertanejas de Canudos e Contestado. Através do relato desta sábia representante do mundo das aves, nos adentraremos na realidade da época, tocaremos as formas peculiares através das quais as populações envolvidas construíram sua resistência diante dos projetos da elite e acompanharemos as preocupações do poder em destruir e desqualificar qualquer sinal de suas lutas.
Por isso, cedemos logo a palavra à Nádia, a coruja, para que nos conduza pelos caminhos da história e ajude a reconstruir a ponte que une os anseios de mudança dos oprimidos de ontem, de hoje e de sempre.
Introdução.
Manhã de quinta-feira. As nuvens que cobrem a cidade dão à periferia o tom cinzento que reflete nas paredes sem cor a sensação de tristeza de seus moradores. Resignados diante de sua própria sorte, homens e mulheres de todas as idades se dirigem ao trabalho cotidiano torcendo para que São Pedro segure a chuva por mais um tempo.
Entre os ruídos que acompanham esta desordenada movimentação de pessoas e sentimentos, os ouvidos distinguem claramente o vociferar típico de uma discussão. Levadas pela curiosidade, as pernas caminham em direção da janela aberta de uma casa através da qual os olhos assistem atônitos a uma cena inesperada.
Sentado a mesa, um homem alto e corpulento gesticula animadamente enquanto as palavras que saem de sua boca traduzem em alto e bom som a negação anunciada pelo menear da cabeça. Em pé diante dele, com ar decidido e a asa direita apontada para o peito de quem chama de secretário, uma pequena coruja arregala os olhos e, sem se deixar intimidar pelo tamanho do seu oponente, ordena:
- "Escreva: Canudos e Contestado!"
- "Não! Não! E não!", repete o homem com insistência ao mesmo tempo em que faz a caneta tocar as penas da ave como quem, desembainhada a espada, se prepara para um duelo.
- "Você vai fazer isso sim! - retruca o pequeno ser sem recuar um único centímetro. Resgatar os enfrentamentos que o povo sustentou para defender as comunidades por ele criadas vai ajudar as pessoas a perceberem que, a partir de sua dignidade e rebeldia, é possível começar a enfrentar a situação de morte e exploração em que vivem e dar sérias dores de cabeça aos poderosos que se fartam às suas custas!"
Sem se dar por vencido, o rosto do secretário assume um ar de reprovação enquanto a boca prepara palavras duras:
- "Nádia, você ficou louca?!? Quem é que vai se interessar pelos feitos de um bando de jagunços fanáticos, atrasados e maltrapilhos, alucinados por líderes loucos, desequilibrados e lunáticos que pregam idéias estranhas, contrárias aos progressos da sociedade de seu tempo e cujo único lugar seguro seria o manicômio?!?".
Certo de ter conseguido infligir uma estocada mortal na teimosa insistência da coruja, o homem deita a caneta na resma de papel e aguarda com expressão irônica a resposta da ave.
Apoiando o queixo numa das asas, Nádia olha disfarçadamente para o alto com um sorriso capaz de fazer balançar os adversários mais impertinentes. Alguns instantes de silêncio... Um longo suspiro... E...
- "Parabéns! Você conseguiu!", diz calmamente a ave.
- "Parabéns... Por quê?", indaga o ajudante entre a desconfiança e a possibilidade de ter se livrado de um trabalho.
- "Ora, querido bípede da espécie humana, porque você conseguiu reunir numa única frase os principais adjetivos que a elite e seus meios de comunicação não cansavam de atribuir aos sertanejos para semear entre a população as razões que justificariam a dura repressão a ser desencadeada contra os dois movimentos. Não é uma novidade o fato que os de cima pintam como demônios os que ameaçam seus interesses antes de desatar os golpes com os quais pretendem silenciar qualquer ato de rebeldia. Desta forma, toda a responsabilidade pelos horrores cometidos em nome da lei e da ordem vai recair nas próprias vítimas.
Conseguida esta façanha, ninguém se dá ao trabalho de perguntar as razões pelas quais simples sertanejos empunharam as armas para defender suas comunidades das tropas oficiais. Menos ainda vai aparecer alguém que queira saber por que resolveram construí-las, como conseguiram atrair tantos adeptos e por qual razão era tão necessário destruí-las.
Por este caminho, a exploração que condena os de baixo a condições de vida insustentáveis é ocultada pelas acusações de banditismo, fanatismo e loucura em nome das quais, as perseguições, os massacres, as execuções sumárias e os demais meios empregados para silenciar a revolta dos oprimidos ganham uma áurea de justo castigo para quem ousou desafiar os donos do poder", conclui Nádia com a seriedade de quem procura substituir confortáveis aparências pela compreensão mais profunda da história.
Desarmado e envergonhado, o secretário abaixa a cabeça em sinal de derrota.
Em silenciosa comemoração, a coruja começa a andar de um lado pra outro. Ave e homem trocam olhares típicos de quem tem consciência de sua posição, até que, limpada a garganta, Nádia assume definitivamente o papel de vencedora ao afirmar:
- "Escreva: Capítulo Primeiro..."
1. O sertão nordestino entre a seca e o latifúndio.
- "No século XIX – diz a coruja com a asa apontada para as folhas que aguardam as palavras do seu relato – os viajantes que atravessam as regiões interioranas do nordeste brasileiro ficam chocados diante da vida miserável dos seus habitantes. Em todos os municípios, o olhar se depara com crianças raquíticas, mendigos com membros deformados, homens e mulheres vítimas de doenças repugnantes.
Apesar das longas jornadas de trabalho sob um sol escaldante, a fome nunca deixa de sentar à mesa de mais de 80% das famílias sertanejas. Um prato diário de angu de farinha de mandioca misturado com gordura de cabra é o cardápio que os pobres só podem se permitir em anos de maior prosperidade. Some isso às dificuldades de acesso à água potável, à precariedade das condições higiênicas e às disputas sangrentas pela propriedade da terra e não terá problemas em explicar os altos índices de mortalidade que afligem a região.
É sobre esta base que, tanto o Império, como a República, tecem suas redes de lealdade política com os senhores locais. Recursos fiscais, concessões de verbas, empréstimos, decisões favoráveis para a construção de obras públicas e, quando necessário, até o uso de tropas oficias são a moeda de troca com a qual se fortalece a dependência dos governos central e provincial em relação aos proprietários locais aos quais cabe a efetiva administração das regiões de cada província.
Além de estimular a corrupção, a busca desenfreada de vantagens financeiras e as constantes rivalidades políticas, esta situação faz com que, no sertão, a própria justiça seja aplicada por jagunços contratados por fazendeiros e latifundiários.
Em outras palavras, mesmo sob o governo da República, a máquina administrativa do Estado fecha os olhos diante das formas pelas quais os coronéis constroem e mantêm uma ordem social dirigida a favorecer os seus interesses. Em contrapartida, os chefes locais costuram alianças com os políticos que integram esta máquina conseguindo, à custa de fraudes e intimidações brutais, os votos de que precisam para se eleger, e, quando isso lhes é requisitado, fazendo contribuições respeitáveis para garantir a presença de seus representantes no governo do Estado.
O controle quase absoluto dos latifundiários sobre suas áreas de influência leva a população a dançar conforme a música e a buscar relações amistosas com a elite local. Trata-se, enfim, de conviver com a exploração com um sentimento que, via de regra, varia entre a submissão resignada e a dívida de gratidão diante das ações que conferem um semblante caridoso aos proprietários que procuram a fidelidade dos subordinados ora através do compadrio, ora de favores distribuídos de forma seletiva".
- "Até agora, não ouvi você falar da seca. Será que a falta de chuva não é o elemento central para explicar a pobreza da população?" – irrompe o secretário sem fazer cerimônias.
A coruja sorri, pisca os olhos e sem titubear responde:
- "Os seres da sua espécie têm a estranha capacidade de trocar vaga-lumes por faróis de milha e acabam atribuindo aos caprichos da natureza a responsabilidade pelas desgraças que deveria ser procurada nas relações que estabelecem entre eles mesmos. Pois, uma coisa é dizer que o problema é a seca e outra, bem diferente, é afirmar que a escassez de água apenas vem agravar e evidenciar a realidade de miséria na qual vive o povo simples.
Ninguém duvida que as secas de 1844-1846, 1869-1870, 1877-1879 e 1888-1889, ampliam a miséria e expulsam multidões de sertanejos para o litoral e as regiões norte e sudeste. O problema é que a carestia não dá trégua nem mesmo quando as chuvas obedecem ao ritmo normal da natureza da região. Ou seja, a razão fundamental de tanta pobreza não deve ser atribuída a São Pedro, mas sim aos proprietários de terras cuja sede de riqueza e de poder retira da maior parte da população as condições básicas para plantar, colher e viver.
Não podemos esquecer que o monopólio da terra no Brasil vem de longe, deste antes da colonização portuguesa. Em 1494, ao assinar o Tratado de Tordesilhas, os reinos de Espanha e Portugal dividem entre si a propriedade do continente. Com isto, é a coroa a ter o poder de doar extensões enormes do território nacional às pessoas julgadas merecedoras desta dádiva. É assim que nobres e homens diretamente ligados à corte concentram em suas mãos parcelas significativas de terra mesmo que não tenham a menor condição de controlá-las e fazê-las frutificar.
Após quase três séculos, o país conta com uma grande quantidade de regiões oficialmente desocupadas e desabitadas. Diante da necessidade de aumentar os recursos de seu cofre, o império se preocupa em fazer com que estes territórios não estejam demasiado disponíveis a qualquer pessoa que tenha interesse em ocupá-los, mas sim que sejam vendidos a caro preço.
A expansão da cafeicultura proporciona ao governo o momento ideal para realizar este desejo. A elevação das quantias pagas pelos que querem comprar um pedaço de chão evita que trabalhadores livres se transformem em proprietários fugindo da condição de vendedores de sua força de trabalho. Ao aumentar o valor das terras e ao dificultar sua aquisição, a elite busca garantir um amplo contingente de trabalhadores obrigados a se fixar em suas plantações para poder sobreviver.
É assim que, em 18 de setembro de 1850, é promulgada a lei N.º 601, mais conhecida como Lei de Terras, que visa assegurar três objetivos básicos: 1. Proibir a aquisição de áreas por outro meio que não seja a compra, extinguindo, de conseqüência, o regime de posse; 2. Impossibilitar que simples colonos adquiram os lotes disponíveis ao vendê-los a caro preço, em leilão e mediante pagamento à vista; 3. Usar os recursos assim obtidos para o financiamento da imigração destinada a substituir os escravos nas lavouras após o fim do tráfico com a África.
Graças a esta medida, a propriedade fundiária se concentra cada vez mais nas mãos dos fazendeiros, um grande número de pequenos proprietários e de posseiros é forçado a deixar suas antigas lavouras para alimentar a quantidade de trabalhadores disponíveis e reduzir os salários a serem pagos.
Neste contexto, em 1895, o governo da Bahia promulga a lei N.º 286 que estabelece como devolutas, ou seja como desocupadas ou desabitadas, todas as terras que não são de uso público, aquelas dos proprietários que não possuem um título legítimo, as posses que não estão fundamentadas em documentos de valor legal e as áreas indígenas cujas aldeias foram extintas por lei ou acabaram sendo abandonadas por seus habitantes. A esta norma, em 21 de agosto de 1897, a administração baiana acrescenta a lei N.º 198 pela qual são consideradas devolutas todas as terras em relação às quais não há qualquer título legal de propriedade e as que não vierem a ser legalizadas nos prazos determinados.
Não é necessário ser especialista em questões agrárias para entender que a nova legislação torna ainda mais precária a situação dos ocupantes pobres de terras familiares (que não dispõem de documento que comprove a propriedade) e coloca seu futuro à mercê das pressões dos latifundiários e das personagens politicamente influentes da região onde vivem.
É sobre esta base que vai se montando um cenário no qual a grande maioria dos trabalhadores agrícolas vai passar a vida inteira como posseiros que devem favores em troca da frágil possibilidade de manterem o seu acesso a terra, como meeiros obrigados a pagarem o aluguel do terreno tanto em produtos como em trabalhos para os fazendeiros, como marginalizados constantemente a procura de emprego e sujeitos a sofrer as penas previstas pelas leis contra a vadiagem, ou flutuando de um setor para outro em condições que pouco se distanciam da indigência.
Se a isso somamos o fato de que quase todas as terras com acesso à água estão nas mãos dos latifundiários, não é difícil entender que os períodos de seca só agravam o que já estava ruim precipitando o povo simples numa situação de penúria insustentável.
- "O fim da escravidão, em maio de 1888, e a proclamação da República, em novembro de 1889... não ajudam a aliviar esta situação?!?" – questiona o secretário com ares de quem aposta nas possibilidades de mudança trazidas pelos altos representantes da política do país.
- "É exatamente o contrário!" – retruca a coruja ao espetar o ar com a ponta da asa esquerda.
- "Como assim?!?".
- "Em primeiro lugar - diz Nádia com expressão compenetrada -, nem a extinção do trabalho escravo, nem o fim do império alteram a estrutura agrária e nada ameaça a existência do latifúndio. Não há terra a ser destinada aos escravos recém-libertados e aos camponeses livres que continuam não vendo saídas para a situação deplorável em que se encontram. Apesar de representarem um progresso social, econômico e político para o país, as possibilidades de melhora para as camadas mais baixas da sociedade são muito reduzidas.
De um lado, o novo regime costura uma aliança entre os empresários da indústria e os latifundiários (muitos deles ex-escravistas) para garantir a coesão das elites e, de outro, a situação econômica do nordeste se deteriora em função das dívidas do país e da participação da região na pauta de exportações".
- "Daria para ser um pouco mais clara..."
- "Vamos por partes - diz a ave ao apoiar o corpo numa pilha de livros. Contrariando o que aconteceu em outros países quando da queda do regime monárquico, no Brasil o advento da República não conta com o apoio popular e sequer desperta qualquer tipo de participação efetiva do povo simples. Fruto da ofensiva das elites militares e civis, a mudança de regime não traz em seu bojo nenhuma medida destinada a minorar os sofrimentos das camadas mais baixas da população.
Em sua disputa pelo poder, empresários e latifundiários passam longe de qualquer proposta que guarde relação com uma possível reforma agrária ou seja destinada a elevar a renda da classe operária. Ao contrário, a importância crescente do café no conjunto das exportações brasileiras leva a uma ulterior concentração das terras mais férteis e o lento processo de industrialização busca criar um grande número de desocupados e desempregados como forma de reduzir os salários e elevar a exploração.
Do ponto de vista dos direitos políticos, a Constituição de 1891 define como eleitor o cidadão do sexo masculino, alfabetizado e maior de 21 anos. Além de negar às mulheres o direito ao voto, a norma legal exclui a esmagadora maioria da população à qual o Estado continua não proporcionando o acesso à educação básica. Em breves palavras, a Republica cria regras que continuam inviabilizando na prática o aparente conteúdo democrático de suas formulações políticas.
O afastamento popular em relação ao novo regime ocorre também em função da separação entre o Estado e a igreja. A liberalização da prática religiosa, a administração dos cemitérios pelas autoridades municipais, a obrigatoriedade do registro de nascimento e do casamento civil são medidas que, além de execradas pelo clero católico, ferem o sentimento religioso. Ao promover a dessacralização do mundo, o caráter leigo da República encontra a resistência de quem, por séculos, havia aprendido a respeitar e reverenciar o imperador como representante de Deus na terra e defensor da religião entre os homens. Este choque cultural aglutina setores da população que, diante da perspectiva de seu ulterior empobrecimento, encontram na religião o elemento que dá identidade e sentido à sua revolta contra as transformações políticas recém-introduzidas.
Se isso não bastasse, a fragilidade do equilíbrio de poder no interior do novo regime é agravada pelos sérios problemas que afetam a economia do Brasil. Apesar da grande quantidade de produtos agrícolas vendidos no mercado mundial, o país continua importando mais do que consegue vender. Além de elevar as dívidas com a Inglaterra, o governo não tem recursos suficientes para investir no desenvolvimento de todas as regiões e passa a privilegiar as áreas que mais participam da pauta de exportações. Estamos falando, por exemplo, de obras de infra-estrutura como estradas de ferro, redes de telégrafos, melhorias dos portos e ações destinadas ao aproveitamento das vias fluviais. Com o café representando 61,5% do total comercializado com o exterior, o centro-sul do país acaba concentrando as verbas destinadas a fortalecer a balança comercial.
Na última década do século XIX, a economia nordestina, baseada na produção de açúcar e cacau, encontra-se em franca decadência. A participação da Bahia nas exportações nacionais não passa de 5% e a sua elite não conta com grandes recursos do governo federal. A saída encontrada pelas administrações locais vai no sentido de elevar a carga de tributos a serem cobrados da população mais desprotegida já que ninguém ousa impô-los a coronéis e fazendeiros. É assim que, nas feiras realizadas neste Estado, quem quiser expor e vender produtos deve pagar as taxas impostas pelos arrecadadores.
Esta situação é agravada pela política financeira adotada pelo regime republicano. Rui Barbosa, o primeiro a ocupar o cargo de Ministro da Fazenda, autoriza uma emissão desenfreada de papel moeda como forma de arcar com os compromissos e as dívidas do Estado. Esta medida dá origem a um progressivo aumento dos preços que faz disparar o custo de vida. De 1888 a 1890, os gêneros de primeira necessidade são 62% mais caros e, de 1891 a 1894, a inflação atinge 118%, um verdadeiro golpe baixo na luta pela sobrevivência dos setores mais empobrecidos. (1)
Para o mundo sertanejo, estas transformações significam uma mudança para pior. Diante do agravar-se da situação de miséria, os ideais republicanos retratados nos discursos indecifráveis e arrogantes das elites não fazem nenhum sentido para a população pobre da Bahia e do nordeste. Na base da pirâmide social, as expressões que apelam à volta da monarquia não têm como motivo inspirador a identidade política do povo com o imperador, mas tão somente a percepção de que, por mal que estivessem, as coisas não eram tão ruins como sob o novo regime".
Um breve instante de silêncio se estabelece entre a coruja e seu secretário. As mãos ainda escrevem as últimas palavras quando a língua deixa escapar uma pergunta:
- "Nádia, se é verdade que a miséria do sertão nordestino deita raízes profundas já na época do Império, como é que o povo não reagiu antes aos desmandos das elites?".
- "Bom, pra início de conversa, vale a pena esclarecer que, durante a escravidão, assistimos sim a inúmeras lutas levadas adiante por escravos insurretos. O que precisa explicar, portanto, é porque homens e mulheres livres, que vivem na pobreza, têm reações que se colocam bem aquém do esperado em termos de revolta.
Neste sentido, além dos vínculos de compadrio com coronéis e fazendeiros da região (que criam relações de dependência e fidelidade) e das necessidades impostas pela sobrevivência, a religião desempenha um papel fundamental na manutenção da paz social. A grande maioria da população sertaneja vivencia um catolicismo por ela mesma produzido diante das dificuldades e das crescentes amarguras do dia-a-dia. Neste se misturam uma resistência estóica aos sofrimentos com a resignação trazida por esperanças que Deus, a Virgem Maria e os santos protetores irão intervir para o sertanejo não sucumbir diante dos desafios da vida, vista como um vale de lágrimas.
Nas áreas mais afastadas do litoral e dos grandes centros do interior, os moradores acreditam que os infortúnios são o resultado da não aceitação do destino pré-determinado de cada um. A seca, a fome e as doenças são vistas como uma resposta divina a esta atitude e, neste sentido, a própria subjugação política passa a ser aceita sem maiores protestos. Este conjunto de crenças leva à percepção de que o ser humano não tem controle sobre os acontecimentos que mudam o rumo da sua existência e à convicção de que se Deus está mandando o sofrimento é necessário que o povo ore e se sacrifique ainda mais para merecer as suas bênçãos. As romarias, as procissões e a própria autoflagelação expressam os desejos intensos que nascem do sofrimento cotidiano e são os meios pelos quais os sertanejos buscam a purificação do corpo e do espírito, anseiam a obtenção do céu dos favores que não conseguem na terra e reúnem forças para superar as dificuldades confiando na proteção divina.
Quando as orações e os demais rituais falham, os devotos sertanejos culpam a si mesmos, prometem mais abnegação e sofrimento, e apesar das duras provações, homens e mulheres sentem que suas preces são atendidas toda vez que a chuva cai e faz a terra florescer. As famílias se reúnem, retornam às terras abandonadas nos períodos de seca, plantam graças aos créditos conseguidos juntos aos proprietários rurais (que alimentam assim o círculo vicioso de dívidas e obrigações) e vêem o momento de relativa prosperidade como uma dádiva de Deus que eles não merecem.
Apesar das aparências, o conjunto destas crenças não leva os devotos a enfrentarem a vida com um sentimento de completa resignação. Se, de um lado, a fé na intervenção das forças sobrenaturais reduz a necessidade de formas mais aprimoradas de controle político, de outro, a luta e o trabalho árduo para vencer os obstáculos, o sacrifício pessoal, a partilha dos poucos recursos disponíveis com parentes distantes ou com vizinhos mais necessitados, revelam aspectos nem sempre evidentes da religiosidade sertaneja. Quando o dilema central é saber o que Deus deseja do homem para libertá-lo da insegurança cotidiana que ameaça a sua sobrevivência, em determinadas condições, a religião pode vir a ser a fonte inspiradora de um mundo novo.
Neste contexto, a expressão «se Deus quiser», que encerra a maioria das frases pronunciadas pelo povo simples, pode deixar de significar mera submissão à realidade como fruto dos desígnios divinos ou apoio destes aos projetos das elites no poder. Deus pode não querer determinadas coisas e apontar outras. Na medida em que isso passa a ser vivenciado coletivamente, tende a ganhar cores e formas que escapam do controle da ordem dominante e se transformam numa ameaça à manutenção da mesma".
- "A hierarquia da igreja católica participa deste processo?"
- "Nada disso – afirma a coruja ao reforçar suas palavras com o menear da cabeça. Ainda que, neste momento, bispos e padres estejam em rota de colisão com as reformas introduzidas pela República, eles não têm interesse e inserção suficientes para sequer sugerir esta possibilidade. Todos os estudos evidenciam uma igreja distante das regiões interioranas. Na Bahia, Estado onde se dará a guerra sertaneja de Canudos, das 190 paróquias existentes em 1887, 124 não dispõem de um padre que viva nelas e 80 destas últimas só conhecem a presença de um sacerdote a cada 3 ou 4 anos quando o vigário ou seus assistentes resolvem passar nas fazendas mais afastadas com o intuito de promover batizados, casamentos, confissões e celebrar missas. (2)
Além das inúmeras vezes em que estas visitas são canceladas, o fato dos rituais acontecerem sob o olhar atento dos coronéis impede qualquer crítica à atuação destes. Se isso não bastasse, o próprio esforço iniciado pela igreja católica do Brasil, em 1883, para melhorar a qualidade do clero local visa combater o avanço de protestantes, espíritas e maçons nas áreas interioranas, abafar a ação de grupos que estejam dispostos a apoiar a secularização do Estado, combater os desvio do catolicismo local, mas passa longe de colocar o dedo nas feridas que condenam à miséria centenas de milhares de pessoas.
De tempos em tempos, as lacunas deixadas pela ausência de um vigário são supridas por missionários errantes que andam pelas regiões mais remotas e empobrecidas. O problema é que a maioria deles, oriundos da Itália e da Alemanha, não fala a língua local o tanto que basta para serem entendidos pelo povo, razão pela qual este esforço acaba sendo totalmente perdido.
O vácuo deixado pela igreja oficial é ocupado pelos beatos, ou seja, por religiosos seculares, andarilhos e leigos que adotam uma vida de penitências e cujas pregações, terços, celebrações imitam o comportamento dos padres e fazem avançar a religiosidade popular. O sacrifício e a dedicação em patamares superiores aos que são vivenciados pela população, atribuem a estas pessoas uma áurea de superioridade moral e de nobreza que, além de destacá-las entre seus pares, ganha o apoio e a confiança dos sertanejos.
É neste contexto que, após percorrer uma ampla região do sertão nordestino, um peregrino que ganha fama e respeito pelos seus conselhos e pela vida ascética que conduz funda no interior da Bahia uma comunidade que passará a ser conhecida no país inteiro. Vamos tratar disso no próximo capítulo ao falar justamente desta personagem controversa que responde pelo nome de..."
2. Antonio Conselheiro
Thursday, March 08, 2007
A DITADURA CONTINUA.
Três trechos do documentário proibido pela Globo "Muito além do cidadão Kane", mostrando a ligação entre a ditadura militar, ACM, a Globo, Collor e a revista Veja e Alckmin.
Parte 1
http://www.youtube.com/watch?v=jI2ffPEdqH8
Parte 2
http://www.youtube.com/watch?v=1N0lXl9Inr0
Parte 3
http://www.youtube.com/watch?v=6Nx3ZGnmWIk
Mais vídeos:
http://www.youtube.com/profile?user=yuricontini
Blog Cultura Petista
http://culturapetista.blogger.com.br
Parte 1
http://www.youtube.com/watch?v=jI2ffPEdqH8
Parte 2
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Posição da Via Campesina sobre Agro-Combustível
POSIÇÃO DA VIA CAMPESINA SOBRE AGRO-COMBUSTÍVEL
Caros amigos e amigas do MST,
O MST esteve em Mali, na África, como parte de uma delegação de 12 representantes de movimentos camponeses e entidades ambientalistas brasileiras, somando-se aos mais de 600 dirigentes de todos os continentes, além de cientistas, ambientalistas, militantes do movimento de mulheres e de diversas outras organizações e entidades, para debater os problemas relacionados à defesa da soberania alimentar em cada país.
Aprofundou-se no Fórum Mundial Pela Soberania Alimentar o debate sobre a necessidade de os movimentos sociais em todo o mundo priorizarem a luta em defesa da produção de alimentos e da soberania alimentar de cada povo. Essa luta envolve também um combate amplo à ofensiva do capital internacional sobre o campo, principalmente na questão do controle dos agro-combustíveis.
Isso porque há uma aliança que unificou os interesses de três grandes setores do capital internacional: a) as empresas petroleiras; b) as corporações transnacionais que controlam o comércio agrícola e as sementes transgênicas c) e as empresas automobilísticas. O único objetivo é manter o atual padrão de consumo do primeiro mundo e as altas taxas de lucro de suas empresas transnacionais.
1. Objetivo das transnacionais e do presidente Bush:
Convencer os governos do hemisfério sul a utilizarem seu território na produção de energia, a partir de produtos agrícolas, com o objetivo de manter o padrão de consumo do “american way of life” no primeiro mundo. A energia vegetal que está dentro dos grãos, na forma de óleo, ou de árvores, é na verdade uma metamorfose agro-química da energia solar. Depois, através do óleo vegetal ou do álcool, se transforma em combustível.
Por isso eles precisam dos países do sul, de maior incidência anual da energia solar e que ainda possuem áreas de terra agricultáveis disponíveis para produção de vegetais oleaginosos como girassol, milho, soja, amendoim, feijão-manso, palma africana ou dendê, ou para produção de álcool a partir da cana-de-açúcar, do milho e de árvores.
Por outro lado, querem impor a produção em monocultivo e, no caso da soja e milho, combinar com sementes transgênicas, o que lhes garantiria um mercado de sementes, de agrotóxicos e ainda a cobrança de royalties para suas empresas transnacionais.
Eles querem apenas lucro e não se importam com a situação do meio ambiente, o aquecimento global e com a vida dos trabalhadores rurais. Resolveram fazer essa ofensiva na produção de energia renovável, para se livrar da dependência de importar petróleo de países agora com governos nacionalistas, como Venezuela e Irã.
Além disso, existe hoje uma enorme instabilidade política na Nigéria, Angola e Arábia Saudita que também são fornecedores dos Estados Unidos e da Europa. Sem falar do fracasso da invasão do Iraque, que também é fornecedor desse combustível.
2. Posição dos movimentos camponeses em todo mundo:
Não podemos chamar esse programa de biocombustível e muito menos de biodiesel. A expressão “bio” que relaciona energia à vida, de forma genérica, é uma clara manipulação de um conceito que não existe. Devemos adotar sim, em todos os idiomas, o conceito de agro-combustíveis. Ou seja, energia gerada a partir de produtos vegetais oriundos da produção agrícola. Embora reconheçamos que o prefixo agro, ainda é muito genérico, e nossos cientistas estão estudando um novo conceito mais preciso.
Concordamos que o uso de agro-combustível é mais adequado para o meio ambiente do que o petróleo. No entanto, ele não afeta a essência do problema da humanidade, que é a atual matriz energética e de transporte, baseado no uso de veículos individuais. Defendemos a substituição radical da atual forma consumista e poluente de transporte individual, pelo transporte coletivo, através de trens, metros, bicicletas, etc.
Não aceitamos que esse plano use produtos agrícolas destinados atualmente à alimentação humana, como milho, soja, girassol, etc., para transformá-los em energia para automóvel.
Mesmo no caso da produção necessário do agro-combustível, devemos produzi-lo de uma forma sustentável. Ou seja, combatemos o atual modelo neoliberal de produção em grandes fazendas e na forma de monocultivo desses produtos. O monocultivo em grande escala é prejudicial ao meio ambiente e expulsa mão-de-obra do campo.
A monocultura afeta o aquecimento do planeta, pois destrói a biodiversidade e impede que a água e a umidade das chuvas se mantenham em equilíbrio com a produção agrícola. Além disso, faz uso intenso de agrotóxicos e máquinas.
Podemos produzir energia, combustível, a partir de produtos agrícolas, porém cultivados de forma sustentável, em pequenas e médias dimensões, que não desequilibrem o meio ambiente e que representem uma maior autonomia dos camponeses no controle da energia e no abastecimento das cidades.
Condenamos veementemente a iniciativa do governo de George W. Bush, que nos próximos dias visita os governos do Brasil, Colômbia, Guatemala para cooptá-los e seduzi-los a multiplicarem a produção de álcool para exportarem aos Estados Unidos.
Em troca, os capitalistas estadunidenses dos três grandes setores do capital exigem o direito de comprar e/ou instalar dezenas de novas usinas de álcool em todo o continente, sendo que propuseram a construção de 100 novas usinas apenas no Brasil.
Para viabilizar esse plano, o governo Bush propõe que se crie uma nova mercadoria internacional, uma “commoditie energética” do álcool, que não seria considerada agrícola para fugir das atuais normas da Organização Mundial do Comercio (OMC).
A Casa Branca propõe também que Brasil, Índia e África do Sul, entre outros, negociem um novo padrão tecnológico comum, para o etanol, seja de milho, de cana ou de árvores. Assim, haveria uma fórmula aceita internacionalmente, formando uma nova Opep de energia agrícola para controlar o comércio mundial.
Um possível sucesso desse plano estadunidense seria uma tragédia para agricultura tropical, transformaria grandes extensões de nossas melhores terras em imensos monocultivos, eliminaria ainda mais a biodiversidade e a produção de alimentos, apenas para abastecer seus carros. Expulsaria milhões de trabalhadores do campo em todo mundo, que se amontoariam ainda mais nas favelas das metrópoles.
O debate e a luta estão apenas iniciando. Esperamos que as organizações sociais possam reagir e que os meios de comunicação possam informar sobre essas questões, que são fundamentais para o futuro de nossos povos.
Por isso, durante as atividades do dia 08 de Março, as mulheres trabalhadoras do campo e da cidade levantam a bandeira da “Luta por Soberania Alimentar, Contra o Agronegócio”, contra as transnacionais que atuam no campo e em defesa dos trabalhadores e da biodiversidade. Soma-se a pauta, o fato de o representante maior do imperialismo, o senhor George W. Bush, desembarcar em território brasileiro nos próximos dias, fomentando ainda mais a luta contra o neoliberalismo.
Secretaria Nacional do MST.
Caros amigos e amigas do MST,
O MST esteve em Mali, na África, como parte de uma delegação de 12 representantes de movimentos camponeses e entidades ambientalistas brasileiras, somando-se aos mais de 600 dirigentes de todos os continentes, além de cientistas, ambientalistas, militantes do movimento de mulheres e de diversas outras organizações e entidades, para debater os problemas relacionados à defesa da soberania alimentar em cada país.
Aprofundou-se no Fórum Mundial Pela Soberania Alimentar o debate sobre a necessidade de os movimentos sociais em todo o mundo priorizarem a luta em defesa da produção de alimentos e da soberania alimentar de cada povo. Essa luta envolve também um combate amplo à ofensiva do capital internacional sobre o campo, principalmente na questão do controle dos agro-combustíveis.
Isso porque há uma aliança que unificou os interesses de três grandes setores do capital internacional: a) as empresas petroleiras; b) as corporações transnacionais que controlam o comércio agrícola e as sementes transgênicas c) e as empresas automobilísticas. O único objetivo é manter o atual padrão de consumo do primeiro mundo e as altas taxas de lucro de suas empresas transnacionais.
1. Objetivo das transnacionais e do presidente Bush:
Convencer os governos do hemisfério sul a utilizarem seu território na produção de energia, a partir de produtos agrícolas, com o objetivo de manter o padrão de consumo do “american way of life” no primeiro mundo. A energia vegetal que está dentro dos grãos, na forma de óleo, ou de árvores, é na verdade uma metamorfose agro-química da energia solar. Depois, através do óleo vegetal ou do álcool, se transforma em combustível.
Por isso eles precisam dos países do sul, de maior incidência anual da energia solar e que ainda possuem áreas de terra agricultáveis disponíveis para produção de vegetais oleaginosos como girassol, milho, soja, amendoim, feijão-manso, palma africana ou dendê, ou para produção de álcool a partir da cana-de-açúcar, do milho e de árvores.
Por outro lado, querem impor a produção em monocultivo e, no caso da soja e milho, combinar com sementes transgênicas, o que lhes garantiria um mercado de sementes, de agrotóxicos e ainda a cobrança de royalties para suas empresas transnacionais.
Eles querem apenas lucro e não se importam com a situação do meio ambiente, o aquecimento global e com a vida dos trabalhadores rurais. Resolveram fazer essa ofensiva na produção de energia renovável, para se livrar da dependência de importar petróleo de países agora com governos nacionalistas, como Venezuela e Irã.
Além disso, existe hoje uma enorme instabilidade política na Nigéria, Angola e Arábia Saudita que também são fornecedores dos Estados Unidos e da Europa. Sem falar do fracasso da invasão do Iraque, que também é fornecedor desse combustível.
2. Posição dos movimentos camponeses em todo mundo:
Não podemos chamar esse programa de biocombustível e muito menos de biodiesel. A expressão “bio” que relaciona energia à vida, de forma genérica, é uma clara manipulação de um conceito que não existe. Devemos adotar sim, em todos os idiomas, o conceito de agro-combustíveis. Ou seja, energia gerada a partir de produtos vegetais oriundos da produção agrícola. Embora reconheçamos que o prefixo agro, ainda é muito genérico, e nossos cientistas estão estudando um novo conceito mais preciso.
Concordamos que o uso de agro-combustível é mais adequado para o meio ambiente do que o petróleo. No entanto, ele não afeta a essência do problema da humanidade, que é a atual matriz energética e de transporte, baseado no uso de veículos individuais. Defendemos a substituição radical da atual forma consumista e poluente de transporte individual, pelo transporte coletivo, através de trens, metros, bicicletas, etc.
Não aceitamos que esse plano use produtos agrícolas destinados atualmente à alimentação humana, como milho, soja, girassol, etc., para transformá-los em energia para automóvel.
Mesmo no caso da produção necessário do agro-combustível, devemos produzi-lo de uma forma sustentável. Ou seja, combatemos o atual modelo neoliberal de produção em grandes fazendas e na forma de monocultivo desses produtos. O monocultivo em grande escala é prejudicial ao meio ambiente e expulsa mão-de-obra do campo.
A monocultura afeta o aquecimento do planeta, pois destrói a biodiversidade e impede que a água e a umidade das chuvas se mantenham em equilíbrio com a produção agrícola. Além disso, faz uso intenso de agrotóxicos e máquinas.
Podemos produzir energia, combustível, a partir de produtos agrícolas, porém cultivados de forma sustentável, em pequenas e médias dimensões, que não desequilibrem o meio ambiente e que representem uma maior autonomia dos camponeses no controle da energia e no abastecimento das cidades.
Condenamos veementemente a iniciativa do governo de George W. Bush, que nos próximos dias visita os governos do Brasil, Colômbia, Guatemala para cooptá-los e seduzi-los a multiplicarem a produção de álcool para exportarem aos Estados Unidos.
Em troca, os capitalistas estadunidenses dos três grandes setores do capital exigem o direito de comprar e/ou instalar dezenas de novas usinas de álcool em todo o continente, sendo que propuseram a construção de 100 novas usinas apenas no Brasil.
Para viabilizar esse plano, o governo Bush propõe que se crie uma nova mercadoria internacional, uma “commoditie energética” do álcool, que não seria considerada agrícola para fugir das atuais normas da Organização Mundial do Comercio (OMC).
A Casa Branca propõe também que Brasil, Índia e África do Sul, entre outros, negociem um novo padrão tecnológico comum, para o etanol, seja de milho, de cana ou de árvores. Assim, haveria uma fórmula aceita internacionalmente, formando uma nova Opep de energia agrícola para controlar o comércio mundial.
Um possível sucesso desse plano estadunidense seria uma tragédia para agricultura tropical, transformaria grandes extensões de nossas melhores terras em imensos monocultivos, eliminaria ainda mais a biodiversidade e a produção de alimentos, apenas para abastecer seus carros. Expulsaria milhões de trabalhadores do campo em todo mundo, que se amontoariam ainda mais nas favelas das metrópoles.
O debate e a luta estão apenas iniciando. Esperamos que as organizações sociais possam reagir e que os meios de comunicação possam informar sobre essas questões, que são fundamentais para o futuro de nossos povos.
Por isso, durante as atividades do dia 08 de Março, as mulheres trabalhadoras do campo e da cidade levantam a bandeira da “Luta por Soberania Alimentar, Contra o Agronegócio”, contra as transnacionais que atuam no campo e em defesa dos trabalhadores e da biodiversidade. Soma-se a pauta, o fato de o representante maior do imperialismo, o senhor George W. Bush, desembarcar em território brasileiro nos próximos dias, fomentando ainda mais a luta contra o neoliberalismo.
Secretaria Nacional do MST.
ECOLOGIA E SOCIALISMO - POR MICHAEL LÖWY
Ecologia e Socialismo
Por Michael Lowy (extraído de www.brasildefato.com.br)
É importante ir construindo a relação entre as lutas sociais e as ambientais, pois elas tendem a concordar, unidas ao redor de objetivos comuns. [...] A luta pelo transporte coletivo moderno e gratuito é um combate para avançar na solução do problema da poluição do ar. Conquistar uma rede de transporte público gratuito significa que a circulação de automóveis vai diminuir, que a poluição será menor, que o ar se tornará mais respirável.
Quando o tema é ecologia e socialismo, o primeiro a ser considerado é até que ponto a razão capitalista está levando o nosso pequeno planeta - e os seres vivos que o habitam - a uma situação catastrófica do ponto de vista do meio-ambiente, das condições de sobrevivência da vida humana e da vida em geral. Aproxima-se um desastre de proporções ainda incalculáveis e os sinais disso já são visíveis.
Atualmente estão se produzindo tempestades tropicais que já assolaram regiões dos Estados Unidos. Especialistas no tema acenam para a possibilidade de que esses desastres chamados naturais tenham relação com o aquecimento global do planeta e das águas oceânicas.
Os dramáticos resultados do desequilíbrio ecológico provocado pela lógica destrutiva da acumulação capitalista são agora evidentes, e os sofreremos ainda mais dentro de dois, dez, cinqüenta anos. Não é uma questão para ser resolvida dentro de um século, nem sequer para trinta anos, é para agora; portanto, requer uma urgente resposta política, ética e humana.
Como a oligarquia dominante está enfrentando estes problemas? Sua resposta é lamentável. Os setores ecologicamente mais avançados do capital internacional - a burguesia européia e outras, como os japoneses - chegaram a um acordo para encarar o problema que consideravam de maior urgência, que é o do efeito estufa: o chamado Protocolo de Kyoto.
Daqui a alguns anos, esse efeito estufa vai provocar o degelo nas zonas glaciais, com o que o nível do mar vai subir, inundando várias cidades costeiras. Este é um cenário bastante provável, e pode estar começando agora mesmo, com o exemplo mais conhecido da tragédia de Nova Orleans.
A resposta dos capitalistas mais conscientes, mais abertos à questão ecológica, se resume no Protocolo de Kyoto, que é absolutamente insuficiente. O Protocolo busca, eventualmente, estabilizar o efeito estufa para dentro de 10 ou 15 anos, com base num mecanismo absurdo chamado "mercado dos direitos de poluir". Os países mais ricos seguem poluindo o mundo, mas baseados na possibilidade de comprar dos países pobres o direito de poluir o que eles não utilizam. Transformam o direito de poluir em mercadoria. Deste modo, as nações continuam poluindo: tanto quanto podem ou estejam dispostos a pagar. Isso é o mais avançado que a elite dominante conseguiu produzir.
Esse acordo mínimo, vazio, falido, é perfeitamente incapaz de responder ao problema: os Estados Unidos, que são o país mais poluidor do mundo, se negam a assinar o Tratado de Kyoto e, enquanto isso, seguem desenvolvendo sua economia na lógica da destruição e da poluição.
O ecossocialismo
Necessitamos pensar em soluções radicais para esse problema. A solução de Kyoto é absolutamente insuficiente e rechaçada pelos Estados Unidos. Se vamos pensar em termos de soluções radicais, necessitamos pensar na questão do socialismo. Por isso, existe um movimento, uma idéia, um programa, que é o ecossocialismo.
O ecossocialismo parte de algumas idéias fundamentais de Marx sobre a lógica do capital e de alguns dos descobrimentos, avanços e conquistas científicas do movimento ecológico e da ciência ecológica. Marx não havia colocado ainda a questão da ecologia em sua análise porque, na sua época, a questão era muito pouco evidente. Mas ele afirma, em O Capital, que o sistema capitalista esgota as forças do trabalhador e as forças da Terra. Traça um paralelo entre o esgotamento do trabalhador e o esgotamento do planeta. Portanto, o desenvolvimento do capitalismo acaba com a natureza.
As atuais fontes de energia do capitalismo são nocivas e perigosas; o que é perigoso para o meio-ambiente, também o é para a humanidade: quer sejam as energias fósseis, em particular o petróleo que vai acabar dentro de algumas décadas - e se sabe matematicamente que vai acabar -, quer seja a energia atômica, que é uma falsa alternativa, pois o lixo nuclear é um problema gigantesco, muito perigoso, e que ninguém consegue resolver.
Então, a transformação revolucionária das forças produtivas passa pela questão das novas fontes de energia, pelas chamadas fontes de energia renováveis. No lugar do petróleo poluidor e da energia nuclear devastadora, necessita-se buscar energias renováveis, como a energia solar. Mas ela não interessa aos capitalistas, porque é gratuita, difícil de vender e não é mercadoria.
O capitalismo não se interessa pela energia solar, não investe em seu desenvolvimento. Obviamente, do ponto de vista socialista, é absolutamente prioritária a pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico da energia solar. Não é a única, mas, com certeza terá um papel central no processo de transformação radical do projeto ecossocialista.
Por isso, alguns velhos socialistas relacionam diretamente nossa utopia revolucionária, o socialismo, o comunismo, com o Sol, com a energia solar. Essa expressão de "comunismo solar" já aparece em alguns trabalhos de ecossocialistas. Haveria uma espécie de profunda afinidade entre a energia solar e o projeto comunista.
Os balanços negativos
Outro tema que deve ser examinado é o balanço negativo do que foi, a partir da visão ecológica, a experiência do chamado "socialismo real" da União Soviética e outros Estados burocráticos. Do ponto de vista da transformação do aparelho produtivo, que avançou muito pouco, os resultados foram enormes catástrofes ecológicas. Essa experiência é um caminho que nós não devemos seguir.
Outro balanço negativo é o do reformismo verde. Os partidos verdes que se formaram nos anos sessenta e setenta, no começo com certa perspectiva radical, terminaram quase todos, entrando em governos de centro-esquerda e convertendo-se ao social-liberalismo. As soluções que se requerem não passam por uma reforma ecológica aqui ou acolá; isso não resolve nenhum dos problemas. O balanço desse eco-reformismo verde é, portanto, bastante decepcionante.
Necessitamos levantar esta utopia revolucionária, essa possibilidade que é o ecossocialismo, que é o comunismo solar. A probabilidade de uma transformação radical da sociedade implica a expropriação do Capital. Mas, ficar apenas na expropriação dos capitalistas não enfrentará a questão do meio-ambiente.
A perspectiva ecológica, compreendida na sua radicalidade como a própria perspectiva socialista, implica a superação do capitalismo, a possibilidade de uma sociedade mais humana, justa, igualitária, democrática e capaz de estabelecer uma relação harmoniosa dos seres humanos entre si e com o meio-ambiente, com a natureza.
Não basta estabelecer este objetivo, essa utopia revolucionária. É preciso começar a construir esse futuro desde já. É necessário participar de todas as lutas, inclusive das mais modestas; como, por exemplo, a de uma comunidade que se defende contra uma empresa poluidora; ou a defesa de uma parte da natureza que esteja ameaçada por um projeto comercial destrutivo.
É importante ir construindo a relação entre as lutas sociais e as ambientais, pois elas tendem a concordar, unidas ao redor de objetivos comuns. Por exemplo, as comunidades indígenas ou camponesas que enfrentam as multinacionais desenvolvem um combate antiimperialista, mas também social e ecológico. A luta pelo transporte coletivo moderno e gratuito é um combate para avançar na solução do problema da poluição do ar. Conquistar uma rede de transporte público gratuito significa que a circulação de automóveis vai diminuir, que a poluição será menor, que o ar se tornará mais respirável.
Necessitamos perceber como, na prática, com essa perspectiva radical, as batalhas diárias vão se combinando, convergindo, articulando.
Hoje o ecossocialismo é não só trabalho de pensadores ou revistas especializadas, está presente nos movimentos sociais; mesmo que alguns deles não se chamem ecologistas ou socialistas, está presente no espírito, na radicalidade, na dinâmica dos movimentos sociais, em particular nas nações do Terceiro Mundo como a Índia, os países africanos e os latino-americanos.
Mas alguns ideólogos da ecologia colocam falsos problemas. Por exemplo, que a degradação do meio-ambiente é culpa de nosso consumismo, que cada um de nós consome muito, que é necessário reduzir o consumo para proteger o meio-ambiente. Isso responsabiliza os indivíduos e redime o sistema. É verdade que o consumo dos indivíduos é um problema, mas o consumo do sistema capitalista, do militarismo capitalista, da lógica de acumulação do capital, é muito maior.
Então, em vez de apregoar a autolimitação individual, é necessário chamar à organização para lutar contra o sistema capitalista; essa deve ser nossa resposta.
Outra visão equivocada é aquela que declara que a culpa é do ser humano, que mediante o antropocentrismo e o humanismo se pôs no centro e desprezou os outros seres vivos. Creio que esta concepção causa falsos problemas. Porque é do interesse da humanidade, da sobrevivência dos seres humanos, dos homens e das mulheres, preservar o meio do qual dependem inevitavelmente.
Não se trata de contrapor a sobrevivência humana à de outras espécies, trata-se de entender que elas são inseparáveis e que nossa sobrevivência como seres humanos depende da salvaguarda do equilíbrio ecológico e da diversidade das espécies; portanto, desde o ecossocialismo estaríamos falando de um humanismo biocentrista.
Michael Löwy é cientista social, leciona na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais da Universidad de Paris. É autor de As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen (Cortez Editora, 1998) e A estrela da manhã. Surrealismo e marxismo. (Civilização Brasileira, 2002), entre outras obras.
Por Michael Lowy (extraído de www.brasildefato.com.br)
É importante ir construindo a relação entre as lutas sociais e as ambientais, pois elas tendem a concordar, unidas ao redor de objetivos comuns. [...] A luta pelo transporte coletivo moderno e gratuito é um combate para avançar na solução do problema da poluição do ar. Conquistar uma rede de transporte público gratuito significa que a circulação de automóveis vai diminuir, que a poluição será menor, que o ar se tornará mais respirável.
Quando o tema é ecologia e socialismo, o primeiro a ser considerado é até que ponto a razão capitalista está levando o nosso pequeno planeta - e os seres vivos que o habitam - a uma situação catastrófica do ponto de vista do meio-ambiente, das condições de sobrevivência da vida humana e da vida em geral. Aproxima-se um desastre de proporções ainda incalculáveis e os sinais disso já são visíveis.
Atualmente estão se produzindo tempestades tropicais que já assolaram regiões dos Estados Unidos. Especialistas no tema acenam para a possibilidade de que esses desastres chamados naturais tenham relação com o aquecimento global do planeta e das águas oceânicas.
Os dramáticos resultados do desequilíbrio ecológico provocado pela lógica destrutiva da acumulação capitalista são agora evidentes, e os sofreremos ainda mais dentro de dois, dez, cinqüenta anos. Não é uma questão para ser resolvida dentro de um século, nem sequer para trinta anos, é para agora; portanto, requer uma urgente resposta política, ética e humana.
Como a oligarquia dominante está enfrentando estes problemas? Sua resposta é lamentável. Os setores ecologicamente mais avançados do capital internacional - a burguesia européia e outras, como os japoneses - chegaram a um acordo para encarar o problema que consideravam de maior urgência, que é o do efeito estufa: o chamado Protocolo de Kyoto.
Daqui a alguns anos, esse efeito estufa vai provocar o degelo nas zonas glaciais, com o que o nível do mar vai subir, inundando várias cidades costeiras. Este é um cenário bastante provável, e pode estar começando agora mesmo, com o exemplo mais conhecido da tragédia de Nova Orleans.
A resposta dos capitalistas mais conscientes, mais abertos à questão ecológica, se resume no Protocolo de Kyoto, que é absolutamente insuficiente. O Protocolo busca, eventualmente, estabilizar o efeito estufa para dentro de 10 ou 15 anos, com base num mecanismo absurdo chamado "mercado dos direitos de poluir". Os países mais ricos seguem poluindo o mundo, mas baseados na possibilidade de comprar dos países pobres o direito de poluir o que eles não utilizam. Transformam o direito de poluir em mercadoria. Deste modo, as nações continuam poluindo: tanto quanto podem ou estejam dispostos a pagar. Isso é o mais avançado que a elite dominante conseguiu produzir.
Esse acordo mínimo, vazio, falido, é perfeitamente incapaz de responder ao problema: os Estados Unidos, que são o país mais poluidor do mundo, se negam a assinar o Tratado de Kyoto e, enquanto isso, seguem desenvolvendo sua economia na lógica da destruição e da poluição.
O ecossocialismo
Necessitamos pensar em soluções radicais para esse problema. A solução de Kyoto é absolutamente insuficiente e rechaçada pelos Estados Unidos. Se vamos pensar em termos de soluções radicais, necessitamos pensar na questão do socialismo. Por isso, existe um movimento, uma idéia, um programa, que é o ecossocialismo.
O ecossocialismo parte de algumas idéias fundamentais de Marx sobre a lógica do capital e de alguns dos descobrimentos, avanços e conquistas científicas do movimento ecológico e da ciência ecológica. Marx não havia colocado ainda a questão da ecologia em sua análise porque, na sua época, a questão era muito pouco evidente. Mas ele afirma, em O Capital, que o sistema capitalista esgota as forças do trabalhador e as forças da Terra. Traça um paralelo entre o esgotamento do trabalhador e o esgotamento do planeta. Portanto, o desenvolvimento do capitalismo acaba com a natureza.
As atuais fontes de energia do capitalismo são nocivas e perigosas; o que é perigoso para o meio-ambiente, também o é para a humanidade: quer sejam as energias fósseis, em particular o petróleo que vai acabar dentro de algumas décadas - e se sabe matematicamente que vai acabar -, quer seja a energia atômica, que é uma falsa alternativa, pois o lixo nuclear é um problema gigantesco, muito perigoso, e que ninguém consegue resolver.
Então, a transformação revolucionária das forças produtivas passa pela questão das novas fontes de energia, pelas chamadas fontes de energia renováveis. No lugar do petróleo poluidor e da energia nuclear devastadora, necessita-se buscar energias renováveis, como a energia solar. Mas ela não interessa aos capitalistas, porque é gratuita, difícil de vender e não é mercadoria.
O capitalismo não se interessa pela energia solar, não investe em seu desenvolvimento. Obviamente, do ponto de vista socialista, é absolutamente prioritária a pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico da energia solar. Não é a única, mas, com certeza terá um papel central no processo de transformação radical do projeto ecossocialista.
Por isso, alguns velhos socialistas relacionam diretamente nossa utopia revolucionária, o socialismo, o comunismo, com o Sol, com a energia solar. Essa expressão de "comunismo solar" já aparece em alguns trabalhos de ecossocialistas. Haveria uma espécie de profunda afinidade entre a energia solar e o projeto comunista.
Os balanços negativos
Outro tema que deve ser examinado é o balanço negativo do que foi, a partir da visão ecológica, a experiência do chamado "socialismo real" da União Soviética e outros Estados burocráticos. Do ponto de vista da transformação do aparelho produtivo, que avançou muito pouco, os resultados foram enormes catástrofes ecológicas. Essa experiência é um caminho que nós não devemos seguir.
Outro balanço negativo é o do reformismo verde. Os partidos verdes que se formaram nos anos sessenta e setenta, no começo com certa perspectiva radical, terminaram quase todos, entrando em governos de centro-esquerda e convertendo-se ao social-liberalismo. As soluções que se requerem não passam por uma reforma ecológica aqui ou acolá; isso não resolve nenhum dos problemas. O balanço desse eco-reformismo verde é, portanto, bastante decepcionante.
Necessitamos levantar esta utopia revolucionária, essa possibilidade que é o ecossocialismo, que é o comunismo solar. A probabilidade de uma transformação radical da sociedade implica a expropriação do Capital. Mas, ficar apenas na expropriação dos capitalistas não enfrentará a questão do meio-ambiente.
A perspectiva ecológica, compreendida na sua radicalidade como a própria perspectiva socialista, implica a superação do capitalismo, a possibilidade de uma sociedade mais humana, justa, igualitária, democrática e capaz de estabelecer uma relação harmoniosa dos seres humanos entre si e com o meio-ambiente, com a natureza.
Não basta estabelecer este objetivo, essa utopia revolucionária. É preciso começar a construir esse futuro desde já. É necessário participar de todas as lutas, inclusive das mais modestas; como, por exemplo, a de uma comunidade que se defende contra uma empresa poluidora; ou a defesa de uma parte da natureza que esteja ameaçada por um projeto comercial destrutivo.
É importante ir construindo a relação entre as lutas sociais e as ambientais, pois elas tendem a concordar, unidas ao redor de objetivos comuns. Por exemplo, as comunidades indígenas ou camponesas que enfrentam as multinacionais desenvolvem um combate antiimperialista, mas também social e ecológico. A luta pelo transporte coletivo moderno e gratuito é um combate para avançar na solução do problema da poluição do ar. Conquistar uma rede de transporte público gratuito significa que a circulação de automóveis vai diminuir, que a poluição será menor, que o ar se tornará mais respirável.
Necessitamos perceber como, na prática, com essa perspectiva radical, as batalhas diárias vão se combinando, convergindo, articulando.
Hoje o ecossocialismo é não só trabalho de pensadores ou revistas especializadas, está presente nos movimentos sociais; mesmo que alguns deles não se chamem ecologistas ou socialistas, está presente no espírito, na radicalidade, na dinâmica dos movimentos sociais, em particular nas nações do Terceiro Mundo como a Índia, os países africanos e os latino-americanos.
Mas alguns ideólogos da ecologia colocam falsos problemas. Por exemplo, que a degradação do meio-ambiente é culpa de nosso consumismo, que cada um de nós consome muito, que é necessário reduzir o consumo para proteger o meio-ambiente. Isso responsabiliza os indivíduos e redime o sistema. É verdade que o consumo dos indivíduos é um problema, mas o consumo do sistema capitalista, do militarismo capitalista, da lógica de acumulação do capital, é muito maior.
Então, em vez de apregoar a autolimitação individual, é necessário chamar à organização para lutar contra o sistema capitalista; essa deve ser nossa resposta.
Outra visão equivocada é aquela que declara que a culpa é do ser humano, que mediante o antropocentrismo e o humanismo se pôs no centro e desprezou os outros seres vivos. Creio que esta concepção causa falsos problemas. Porque é do interesse da humanidade, da sobrevivência dos seres humanos, dos homens e das mulheres, preservar o meio do qual dependem inevitavelmente.
Não se trata de contrapor a sobrevivência humana à de outras espécies, trata-se de entender que elas são inseparáveis e que nossa sobrevivência como seres humanos depende da salvaguarda do equilíbrio ecológico e da diversidade das espécies; portanto, desde o ecossocialismo estaríamos falando de um humanismo biocentrista.
Michael Löwy é cientista social, leciona na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais da Universidad de Paris. É autor de As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen (Cortez Editora, 1998) e A estrela da manhã. Surrealismo e marxismo. (Civilização Brasileira, 2002), entre outras obras.
Tuesday, March 06, 2007
PESQUISA CIENTIFICA MOSTRA MANIPULAÇÃO DA VEJA
PESQUISA CIENTIFICA MOSTRA COMO VEJA ILUDE E MANIPULA
Dissertação de mestrado analisa como a 'Revista VEJA' trata a questão do trabalho
Fonte:
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/asp080520026.htm
"A revista VEJA é atualmente um dos veículos que mais se destacam na imprensa brasileira. Por ser a revista de maior tiragem no Brasil, a VEJA desperta o interesse de pesquisadores de diversas áreas. Nilton Hernandes analisa, em sua dissertação de mestrado, cinco números da revista, selecionados de um total de 93 edições, veiculadas entre 4 de dezembro de 1996 e 27 de janeiro de 1999. A dissertação pretende mostrar, através da metodologia semiótica, como a VEJA conciliou o tema emprego com um dos momentos mais críticos da globalização.
Sala de Imprensa: Por que a escolha da Revista VEJA e a questão do emprego, especificamente?
Nilton Hernandes: Eu sempre tive clareza de que eu queria fazer uma dissertação que tivesse vínculos com a realidade, entendendo realidade como aquilo que as pessoas vivem, os dramas das pessoas. E que fosse de alguma maneira crítica ao que acontece nesse país. Escolhi a VEJA porque a VEJA é a revista mais vendida desse país, uma revista que tem uma linha política clara, no sentido de ser desmobilizadora, no sentido de sempre insistir nas saídas individuais para as pessoas - o que eu considero no Brasil hoje uma tragédia . Eu quis focar na VEJA essa característica desmobilizadora, e eu acho que a minha dissertação de certa maneira comprova isso. Comprova uma intuição que eu tinha, ou pelo menos uma opinião que eu não tinha base para fundamentar antes de fazer a dissertação. Eu quis fazer uma reflexão sobre a revista e o poder que ela tem sobre as pessoas.
É preciso lembrar que um trabalho acadêmico é antes de tudo um trabalho de justificação de um ponto de vista. Eu acho que é um erro, e aparece em muitas dissertações, as pessoas começarem fazendo suas teses e dissertações já sabendo onde vão chegar. Elas lêem um montão de livros e pegam aqueles que comprovam o seu ponto de vista. Eu tentei de certa maneira, porque eu não vivo além dessa realidade, buscar um ponto de vista objetivo, para dentro do texto conseguir informações para dizer: 'a VEJA pensa assim porque o texto me permite fazer essa afirmação'. E não o contrário: 'eu pesquisador penso assim, vou encontrar uma teoria que pense como eu penso, e vou pincelar uma coisa da revista para provar o que eu quero'. Eu tive uma intuição, eu utilizei uma metodologia, que é a metodologia semiótica, que me permitiu no texto, sem sair do texto, chegar às conclusões que cheguei. Não é um trabalho de opinião, mas um trabalho onde eu tento mostrar quais são os mecanismos que a revista utiliza para colocar essa ideologia em circulação, como ela trabalha a ideologia neoliberal em relação ao trabalho, mas sempre respeitando o seu texto.
Uma opinião minha, presente na dissertação, que inclusive eu tenho certeza que a maioria dos meus professores não concordaria, é que eu acho que quem analisa a mídia hoje não pode se dar ao luxo de analisar pedacinhos dos seus corpos. Por exemplo analisar só a fotografia, só os títulos, só a parte verbal, só a capa. Porque a mídia não é construída em pedacinhos. Ela é um todo de sentidos e assim ela deve ser respeitada. Eu acho que cada vez que a gente escolhe um pedacinho para fazer a análise, a gente consegue fazer a análise, consegue fazer um trabalho acadêmico coerente, mas uma série de sentidos são perdidos. E esses sentidos é que nos permitiriam ter acesso às estratégias ideológicas e ter uma visão crítica desses objetos.
Eu escolhi a questão do emprego porque é uma coisa que mexe com todo mundo e faz com que as pessoas tenham determinadas reflexões sobre o político. Quando a VEJA fala por exemplo que cabe ao trabalhador se virar e ver o outro como competidor, ela está criando uma relação política, que tem sérias conseqüências para o país e inclusive para a própria pessoa. Ela vai ver o outro trabalhador como um competidor, não como alguém que pode se unir a ela para reivindicar um mundo melhor, um país com mais trabalho.
Sala de Imprensa: As revistas hoje trabalham assumidamente com a relação informação/interpretação. Como é essa relação na VEJA?
Nilton Hernandes: A questão da divisão informação/interpretação faz parte das teorias de comunicação e a semiótica não acredita nisso. O que existe é uma dada realidade e as pessoas vão apreender esse real com base numa visão de mundo. A revista tem uma ideologia e vai construir o real em função dessa ideologia, e não o contrário. A VEJA não trabalha nem com a idéia de imparcialidade nem com a idéia de interpretação, a VEJA é uma revista que se assume como opinativa, ela se assume como a revista que dá a verdade última sobre tudo. Ela assume isso, não sou eu que estou falando. Há textos do Civita, dono da revista, onde ele fala isso claramente. A VEJA se assume dentro da imprensa nacional como a revista que dá a última opinião, depois que todas as outras mídias noticiaram. Ela transforma um problema em uma solução. O problema é ela ser a última mídia a noticiar, portanto ela sempre dá notícia velha. Então ela transforma isso em algo em favor dela. Ela diz assim: 'agora eu vou julgar tudo o que as mídias mais rápidas já deram e vou determinar o que é verdade e o que é mentira'. Ela é o enunciador que sabe tudo.
É típico da VEJA falar assim: 'nós ouvimos o maior especialista mundial sobre esse assunto e ele disse isso, mas ele está errado'. O que a VEJA fala é que ela sabe mais do que a pessoa que sabe mais. Isso está nos textos.
Ela age como um padre, que não admite discutir se Deus existe ou não existe, ele parte do princípio de que isso é um fato. Da mesma maneira a VEJA tem os seus fatos, que são verdades indiscutíveis, não interessa para a VEJA por exemplo ouvir o outro lado. Isso a VEJA jamais utiliza, e se ela utiliza é uma linha e para desqualificar o discurso. A VEJA trabalha dentro dessa visão do padre e fala que chegou à verdade. Não admite discussão. Não se discute o que é verdade a partir do momento que ela foi colocada como algo indiscutível.
Sala de Imprensa: O fato da VEJA ser uma redação muito mais de editores do que de repórteres influência no seu conteúdo ou no 'estilo VEJA'?
Nilton Hernandes: Existe uma polêmica interessante na minha dissertação, eu ouvi os jornalistas da VEJA, o diretor da VEJA, e o diretor da redação e todos falaram: 'não existe um estilo Veja, nós só trabalhamos com fatos e interpretação'. E o que eu acho que a minha dissertação consegue mostrar é que existe sim um 'estilo VEJA', que é marcado por várias coisas que a gente já falou, como por exemplo jamais ouvir o outro lado, sempre ter uma tese para defender, e utilizar a informação como maneira de cercar essa tese do maior número possível de argumentos. O leitor lê a matéria e fala: 'a VEJA ouviu tantas pessoas que sabem do assunto, pegou tantos dados sobre o assunto, levantou tantas estatísticas, que só pode ser verdade'. Esse é o 'estilo VEJA'.
A gente tem que sempre lembrar que a VEJA tem uma semana para fazer, e tem uma das maiores equipes de jornalistas desse país. Uma redação imensa, de gente altamente qualificada, e o 'estilo VEJA' é exatamente isso: afirmar que o desemprego melhorou, e fazer com que essa equipe fantástica vá atrás de informações que corroborem essa verdade da revista. Não partir de uma situação hipotética, admitindo que exista o problema do emprego no Brasil, e mandar sua equipe investigar em que consiste esse problema.
Sala de Imprensa: Como as fotografias são utilizadas e quais os efeitos pretendidos com elas?
Nilton Hernandes: Eu vou falar daquilo que eu analisei. A única coisa que a gente percebe é que a VEJA usa muito mal os recursos fotográficos e visuais. Nas matérias que eu analisei, a maior parte das fotos são fotos posadas. Ou seja, o fotógrafo chegou lá e falou: 'senta aqui, faz uma pose, levanta o braço, faz cara de preocupado, não faz cara de preocupado'. Ele bate a foto que vai corroborar uma idéia do texto. O fotógrafo da VEJA é um fotógrafo frustrado, porque ele recebe uma pauta que chega ao cúmulo de falar o fundo que a foto tem que ter, os gestos, as expressões.
Sala de Imprensa: Qual o papel dos Estados Unidos na Revista VEJA?
Nilton Hernandes: Eu quis trazer para a minha dissertação uma experiência que eu tive. Eu morei nos Estados Unidos e achava muito interessante, quando eu cheguei lá com os meus preconceitos, perceber que era uma sociedade absolutamente individualista, mas ao mesmo tempo uma das sociedades mais mobilizadas do planeta. Uma sociedade onde todas as pessoas fazem parte de alguma organização que de alguma maneira defende uma idéia. Eu achava que era uma contradição, mas eu fui perceber que não. Porque as pessoas percebem que para defender seus interesses individuais nada melhor que se unir. Quando a gente recebe as informações sobre os Estados Unidos via mídia é sempre o lado do indivíduo que faz tudo por dinheiro. Nunca recebemos o lado dos Estados Unidos que defendem os seus interesses como país, os seus interesses como povo. Então você tem o discurso da globalização, que eu particularmente vejo como uma maneira de estender o modo de vida norte-americano para o planeta inteiro, que coloca os Estados Unidos só com essa parte individual. A parte coletiva não interessa, porque não se engole os Estados Unidos como modelo, se soubermos da outra parte, de que ele defende seus interesses. Nós vamos chegar à conclusão de que nós temos que defender o nosso interesse também.
Na VEJA os Estados Unidos dão a sanção a tudo aquilo que nós fazemos, dão o julgamento. A VEJA vai ouvir um especialista dos Estados Unidos para comunicar: 'agora nós vamos ouvir a última palavra'. E assim ela está construindo um simulacro dos Estados Unidos como um padrão que nós devemos seguir. Interessa mostrar como lá eles são mais felizes, lá eles ganham mais dinheiro, lá eles estudam e têm mais empregos.
O que eu coloco na minha dissertação, a partir dos textos que eu analisei, é que a VEJA faz um simulacro dos Estados Unidos dentro do seu interesse de vender a idéia de que o indivíduo pode correr atrás de sua felicidade. Esse é um processo individual e a VEJA vai ajudar esse indivíduo a ficar rico. Ela dá a única saída e ao mesmo tempo ela é a entidade que vai ajudar você a chegar ao seu objetivo de conquistar o sucesso. Esse sucesso é o que ela defende como ideologia, é claro.
O que eu acho muito interessante observar é que nós tínhamos uma divisão do mundo entre ricos e pobres. Atualmente nós estamos assumindo a ideologia americana entre loosers e winners, vencedores e perdedores. Essa ideologia ela é muito mais perniciosa, porque se eu tenho um milhão de dólares, sou uma pessoa muito rica. Se eu perdi meio milhão continuo muito rica, só que dentro da óptica de julgamento social eu sou um perdedor, eu sou um looser. Isso vai fazer com que eu tenha que correr atrás do prejuízo. Essa ética, ou essa falta de ética, que a VEJA está passando para nós. O que a VEJA maneja então é um desejo de vencer na vida, de ajudar as pessoas que vão atingir o sucesso, mesmo que para atingir esse sucesso elas deixem um rastro de perdedores. Ela se coloca como a doadora do saber de como chegar a esse pódio.
Sala de Imprensa: O leitor procura na VEJA um respaldo para suas verdades, já que a revista expõe, muito mais do que novas informações, uma linha de pensamento que na maioria das vezes não abandona o senso comum?
Nilton Hernandes: Eu acho que não existe esse processo consciente. O que existe é o seguinte: você tem os meios de comunicação como a revista VEJA, que criam uma atração, que criam uma idéia de prêmio para você ser de determinada maneira. Por exemplo, o prêmio por você ser uma pessoa individualista, ver tudo e todos como mercadoria, se matar de estudar e deixar sua vida pessoal de lado, é o sucesso profissional. E ao mesmo tempo em que ela tem uma idéia de prêmio ela tem uma idéia de castigo. 'Se você não acreditar na gente ninguém vai gostar de você, você não vai namorar, não vai casar, não vai ter prestígio, ou seja, você vai deixar de ser'. Quando as pessoas aceitam a VEJA, elas estão aceitando essa possibilidade de prêmio. Mas eu não acho que é um processo consciente, até porque se você percebe em relação a vinte anos, quando havia um contraponto que era a ideologia comunista ou socialista, quando havia dois discursos se batendo, existia muito mais possibilidade de escolha de vida discursiva do que se tem hoje. Hoje se tem um discurso único, onde na verdade o que muda de mídia para mídia são as nuanças desse discurso. A Folha vai falar a mesma coisa que a VEJA, só que a Folha assume uma outra maneira de falar, o Estado tem uma outra postura e assim por diante. Todas essas posturas estão dentro do discurso único. Hoje o que se coloca para a pessoa é: 'se você não pensa assim você pensa como?'
Se nem os pensadores de uma universidade como a USP conseguiram dar essa resposta, dar uma saída para esse discurso único, neoliberal, globalizado, imagine o leitor, que está sendo manipulado, ouvindo que ele tem prêmios e castigos."-
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Campanha Nacional de Boicote à revista VEJA: Uma questão de honra para a efetiva democratização da imprensa no Brasil . META: Cada um deve conseguir UM CANCELAMENTO DE ASSINATURA da revista, e a substituição dela pela CAROS AMIGOS ou pela CARTA CAPITAL como fonte de informação semanal.
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Dissertação de mestrado analisa como a 'Revista VEJA' trata a questão do trabalho
Fonte:
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/asp080520026.htm
"A revista VEJA é atualmente um dos veículos que mais se destacam na imprensa brasileira. Por ser a revista de maior tiragem no Brasil, a VEJA desperta o interesse de pesquisadores de diversas áreas. Nilton Hernandes analisa, em sua dissertação de mestrado, cinco números da revista, selecionados de um total de 93 edições, veiculadas entre 4 de dezembro de 1996 e 27 de janeiro de 1999. A dissertação pretende mostrar, através da metodologia semiótica, como a VEJA conciliou o tema emprego com um dos momentos mais críticos da globalização.
Sala de Imprensa: Por que a escolha da Revista VEJA e a questão do emprego, especificamente?
Nilton Hernandes: Eu sempre tive clareza de que eu queria fazer uma dissertação que tivesse vínculos com a realidade, entendendo realidade como aquilo que as pessoas vivem, os dramas das pessoas. E que fosse de alguma maneira crítica ao que acontece nesse país. Escolhi a VEJA porque a VEJA é a revista mais vendida desse país, uma revista que tem uma linha política clara, no sentido de ser desmobilizadora, no sentido de sempre insistir nas saídas individuais para as pessoas - o que eu considero no Brasil hoje uma tragédia . Eu quis focar na VEJA essa característica desmobilizadora, e eu acho que a minha dissertação de certa maneira comprova isso. Comprova uma intuição que eu tinha, ou pelo menos uma opinião que eu não tinha base para fundamentar antes de fazer a dissertação. Eu quis fazer uma reflexão sobre a revista e o poder que ela tem sobre as pessoas.
É preciso lembrar que um trabalho acadêmico é antes de tudo um trabalho de justificação de um ponto de vista. Eu acho que é um erro, e aparece em muitas dissertações, as pessoas começarem fazendo suas teses e dissertações já sabendo onde vão chegar. Elas lêem um montão de livros e pegam aqueles que comprovam o seu ponto de vista. Eu tentei de certa maneira, porque eu não vivo além dessa realidade, buscar um ponto de vista objetivo, para dentro do texto conseguir informações para dizer: 'a VEJA pensa assim porque o texto me permite fazer essa afirmação'. E não o contrário: 'eu pesquisador penso assim, vou encontrar uma teoria que pense como eu penso, e vou pincelar uma coisa da revista para provar o que eu quero'. Eu tive uma intuição, eu utilizei uma metodologia, que é a metodologia semiótica, que me permitiu no texto, sem sair do texto, chegar às conclusões que cheguei. Não é um trabalho de opinião, mas um trabalho onde eu tento mostrar quais são os mecanismos que a revista utiliza para colocar essa ideologia em circulação, como ela trabalha a ideologia neoliberal em relação ao trabalho, mas sempre respeitando o seu texto.
Uma opinião minha, presente na dissertação, que inclusive eu tenho certeza que a maioria dos meus professores não concordaria, é que eu acho que quem analisa a mídia hoje não pode se dar ao luxo de analisar pedacinhos dos seus corpos. Por exemplo analisar só a fotografia, só os títulos, só a parte verbal, só a capa. Porque a mídia não é construída em pedacinhos. Ela é um todo de sentidos e assim ela deve ser respeitada. Eu acho que cada vez que a gente escolhe um pedacinho para fazer a análise, a gente consegue fazer a análise, consegue fazer um trabalho acadêmico coerente, mas uma série de sentidos são perdidos. E esses sentidos é que nos permitiriam ter acesso às estratégias ideológicas e ter uma visão crítica desses objetos.
Eu escolhi a questão do emprego porque é uma coisa que mexe com todo mundo e faz com que as pessoas tenham determinadas reflexões sobre o político. Quando a VEJA fala por exemplo que cabe ao trabalhador se virar e ver o outro como competidor, ela está criando uma relação política, que tem sérias conseqüências para o país e inclusive para a própria pessoa. Ela vai ver o outro trabalhador como um competidor, não como alguém que pode se unir a ela para reivindicar um mundo melhor, um país com mais trabalho.
Sala de Imprensa: As revistas hoje trabalham assumidamente com a relação informação/interpretação. Como é essa relação na VEJA?
Nilton Hernandes: A questão da divisão informação/interpretação faz parte das teorias de comunicação e a semiótica não acredita nisso. O que existe é uma dada realidade e as pessoas vão apreender esse real com base numa visão de mundo. A revista tem uma ideologia e vai construir o real em função dessa ideologia, e não o contrário. A VEJA não trabalha nem com a idéia de imparcialidade nem com a idéia de interpretação, a VEJA é uma revista que se assume como opinativa, ela se assume como a revista que dá a verdade última sobre tudo. Ela assume isso, não sou eu que estou falando. Há textos do Civita, dono da revista, onde ele fala isso claramente. A VEJA se assume dentro da imprensa nacional como a revista que dá a última opinião, depois que todas as outras mídias noticiaram. Ela transforma um problema em uma solução. O problema é ela ser a última mídia a noticiar, portanto ela sempre dá notícia velha. Então ela transforma isso em algo em favor dela. Ela diz assim: 'agora eu vou julgar tudo o que as mídias mais rápidas já deram e vou determinar o que é verdade e o que é mentira'. Ela é o enunciador que sabe tudo.
É típico da VEJA falar assim: 'nós ouvimos o maior especialista mundial sobre esse assunto e ele disse isso, mas ele está errado'. O que a VEJA fala é que ela sabe mais do que a pessoa que sabe mais. Isso está nos textos.
Ela age como um padre, que não admite discutir se Deus existe ou não existe, ele parte do princípio de que isso é um fato. Da mesma maneira a VEJA tem os seus fatos, que são verdades indiscutíveis, não interessa para a VEJA por exemplo ouvir o outro lado. Isso a VEJA jamais utiliza, e se ela utiliza é uma linha e para desqualificar o discurso. A VEJA trabalha dentro dessa visão do padre e fala que chegou à verdade. Não admite discussão. Não se discute o que é verdade a partir do momento que ela foi colocada como algo indiscutível.
Sala de Imprensa: O fato da VEJA ser uma redação muito mais de editores do que de repórteres influência no seu conteúdo ou no 'estilo VEJA'?
Nilton Hernandes: Existe uma polêmica interessante na minha dissertação, eu ouvi os jornalistas da VEJA, o diretor da VEJA, e o diretor da redação e todos falaram: 'não existe um estilo Veja, nós só trabalhamos com fatos e interpretação'. E o que eu acho que a minha dissertação consegue mostrar é que existe sim um 'estilo VEJA', que é marcado por várias coisas que a gente já falou, como por exemplo jamais ouvir o outro lado, sempre ter uma tese para defender, e utilizar a informação como maneira de cercar essa tese do maior número possível de argumentos. O leitor lê a matéria e fala: 'a VEJA ouviu tantas pessoas que sabem do assunto, pegou tantos dados sobre o assunto, levantou tantas estatísticas, que só pode ser verdade'. Esse é o 'estilo VEJA'.
A gente tem que sempre lembrar que a VEJA tem uma semana para fazer, e tem uma das maiores equipes de jornalistas desse país. Uma redação imensa, de gente altamente qualificada, e o 'estilo VEJA' é exatamente isso: afirmar que o desemprego melhorou, e fazer com que essa equipe fantástica vá atrás de informações que corroborem essa verdade da revista. Não partir de uma situação hipotética, admitindo que exista o problema do emprego no Brasil, e mandar sua equipe investigar em que consiste esse problema.
Sala de Imprensa: Como as fotografias são utilizadas e quais os efeitos pretendidos com elas?
Nilton Hernandes: Eu vou falar daquilo que eu analisei. A única coisa que a gente percebe é que a VEJA usa muito mal os recursos fotográficos e visuais. Nas matérias que eu analisei, a maior parte das fotos são fotos posadas. Ou seja, o fotógrafo chegou lá e falou: 'senta aqui, faz uma pose, levanta o braço, faz cara de preocupado, não faz cara de preocupado'. Ele bate a foto que vai corroborar uma idéia do texto. O fotógrafo da VEJA é um fotógrafo frustrado, porque ele recebe uma pauta que chega ao cúmulo de falar o fundo que a foto tem que ter, os gestos, as expressões.
Sala de Imprensa: Qual o papel dos Estados Unidos na Revista VEJA?
Nilton Hernandes: Eu quis trazer para a minha dissertação uma experiência que eu tive. Eu morei nos Estados Unidos e achava muito interessante, quando eu cheguei lá com os meus preconceitos, perceber que era uma sociedade absolutamente individualista, mas ao mesmo tempo uma das sociedades mais mobilizadas do planeta. Uma sociedade onde todas as pessoas fazem parte de alguma organização que de alguma maneira defende uma idéia. Eu achava que era uma contradição, mas eu fui perceber que não. Porque as pessoas percebem que para defender seus interesses individuais nada melhor que se unir. Quando a gente recebe as informações sobre os Estados Unidos via mídia é sempre o lado do indivíduo que faz tudo por dinheiro. Nunca recebemos o lado dos Estados Unidos que defendem os seus interesses como país, os seus interesses como povo. Então você tem o discurso da globalização, que eu particularmente vejo como uma maneira de estender o modo de vida norte-americano para o planeta inteiro, que coloca os Estados Unidos só com essa parte individual. A parte coletiva não interessa, porque não se engole os Estados Unidos como modelo, se soubermos da outra parte, de que ele defende seus interesses. Nós vamos chegar à conclusão de que nós temos que defender o nosso interesse também.
Na VEJA os Estados Unidos dão a sanção a tudo aquilo que nós fazemos, dão o julgamento. A VEJA vai ouvir um especialista dos Estados Unidos para comunicar: 'agora nós vamos ouvir a última palavra'. E assim ela está construindo um simulacro dos Estados Unidos como um padrão que nós devemos seguir. Interessa mostrar como lá eles são mais felizes, lá eles ganham mais dinheiro, lá eles estudam e têm mais empregos.
O que eu coloco na minha dissertação, a partir dos textos que eu analisei, é que a VEJA faz um simulacro dos Estados Unidos dentro do seu interesse de vender a idéia de que o indivíduo pode correr atrás de sua felicidade. Esse é um processo individual e a VEJA vai ajudar esse indivíduo a ficar rico. Ela dá a única saída e ao mesmo tempo ela é a entidade que vai ajudar você a chegar ao seu objetivo de conquistar o sucesso. Esse sucesso é o que ela defende como ideologia, é claro.
O que eu acho muito interessante observar é que nós tínhamos uma divisão do mundo entre ricos e pobres. Atualmente nós estamos assumindo a ideologia americana entre loosers e winners, vencedores e perdedores. Essa ideologia ela é muito mais perniciosa, porque se eu tenho um milhão de dólares, sou uma pessoa muito rica. Se eu perdi meio milhão continuo muito rica, só que dentro da óptica de julgamento social eu sou um perdedor, eu sou um looser. Isso vai fazer com que eu tenha que correr atrás do prejuízo. Essa ética, ou essa falta de ética, que a VEJA está passando para nós. O que a VEJA maneja então é um desejo de vencer na vida, de ajudar as pessoas que vão atingir o sucesso, mesmo que para atingir esse sucesso elas deixem um rastro de perdedores. Ela se coloca como a doadora do saber de como chegar a esse pódio.
Sala de Imprensa: O leitor procura na VEJA um respaldo para suas verdades, já que a revista expõe, muito mais do que novas informações, uma linha de pensamento que na maioria das vezes não abandona o senso comum?
Nilton Hernandes: Eu acho que não existe esse processo consciente. O que existe é o seguinte: você tem os meios de comunicação como a revista VEJA, que criam uma atração, que criam uma idéia de prêmio para você ser de determinada maneira. Por exemplo, o prêmio por você ser uma pessoa individualista, ver tudo e todos como mercadoria, se matar de estudar e deixar sua vida pessoal de lado, é o sucesso profissional. E ao mesmo tempo em que ela tem uma idéia de prêmio ela tem uma idéia de castigo. 'Se você não acreditar na gente ninguém vai gostar de você, você não vai namorar, não vai casar, não vai ter prestígio, ou seja, você vai deixar de ser'. Quando as pessoas aceitam a VEJA, elas estão aceitando essa possibilidade de prêmio. Mas eu não acho que é um processo consciente, até porque se você percebe em relação a vinte anos, quando havia um contraponto que era a ideologia comunista ou socialista, quando havia dois discursos se batendo, existia muito mais possibilidade de escolha de vida discursiva do que se tem hoje. Hoje se tem um discurso único, onde na verdade o que muda de mídia para mídia são as nuanças desse discurso. A Folha vai falar a mesma coisa que a VEJA, só que a Folha assume uma outra maneira de falar, o Estado tem uma outra postura e assim por diante. Todas essas posturas estão dentro do discurso único. Hoje o que se coloca para a pessoa é: 'se você não pensa assim você pensa como?'
Se nem os pensadores de uma universidade como a USP conseguiram dar essa resposta, dar uma saída para esse discurso único, neoliberal, globalizado, imagine o leitor, que está sendo manipulado, ouvindo que ele tem prêmios e castigos."-
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Campanha Nacional de Boicote à revista VEJA: Uma questão de honra para a efetiva democratização da imprensa no Brasil . META: Cada um deve conseguir UM CANCELAMENTO DE ASSINATURA da revista, e a substituição dela pela CAROS AMIGOS ou pela CARTA CAPITAL como fonte de informação semanal.
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ENTREVISTA DE VALTER POMAR NO PORTAL DO PT
02/03/2007 - 18:49
Pomar: "Que Bush não conte com o Brasil para ações imperialistas na região"
O presidente norte-americano George W. Bush chega ao Brasil no próximo dia 8, para uma visita de dois dias, trazendo na bagagem bem mais do que propostas para melhorar as relações comerciais entre os dois países, segundo consta da pauta oficial. Desgastado politicamente, fora e dentro de casa, Bush também usa o giro pela América Latina como estratégia para sair da defensiva e recuperar a ascendência dos EUA sobre o cone Sul do Continente, abalada após a eleição de vários governos de esquerda comprometidos com as causas da soberania popular, da igualdade social e da integração regional.
Neste sentido, tem significado especial sua passagem pelo Brasil, que, segundo analistas, seria visto como o país ideal para mediar eventuais conflitos entre os EUA e governos como o de Hugo Chávez, na Venezuela, e o de Evo Morales, na Bolívia.
Para Valter Pomar, secretário de Relações Internacionais do PT, o Brasil pode, sim, cumprir o papel de “mediador”, mas sem abrir espaço às pretensões imperialistas norte-americanas. “Não contem com o Brasil para pressionar Cuba, Venezuela, Bolívia e o Equador”, avisa Pomar.
Em entrevista ao Portal do PT, o dirigente diz ainda que, dado caráter bélico dos EUA, a América Latina precisa estar “cotidianamente” preparada para todo tipo de agressão.
Para ele, a integração sul-americana e o estabelecimento de relações diplomáticas sólidas com o resto do mundo são mecanismo que ajudam a conter “a violência dos gringos”.
Leia abaixo a íntegra da entrevista:
Portal do PT: Qual o significado político da visita de Bush a países da América Latina, num momento em que vários deles reafirmam sua soberania e buscam na integração regional uma alternativa à histórica dependência norte-americana?
Valter Pomar: O governo Bush vive uma enorme crise. A invasão do Iraque transformou-se num impasse militar. As relações com a Rússia estão se deteriorando rapidamente. A crítica ao unilateralismo é cada vez maior, em todas as regiões. Na América Latina, os aliados dos Estados Unidos perderam a maior parte das eleições (no México, tiveram que apelar para a fraude). O projeto da Alca afundou, em parte devido à resistência popular e governamental latino-americana, em parte pela ausência de concessões por parte dos Estados Unidos. Os democratas ganharam as eleições parlamentares e devem ganhar as eleições presidenciais. Neste contexto, Bush busca sair da defensiva. Um exemplo disso é o aumento da pressão militar, tanto no Iraque quanto contra o Irã. Outro exemplo é esta visita a alguns países da América Latina, caso do México, da Colômbia, do Uruguai e do Brasil. Fala-se que por trás estaria o propósito de criar um eixo anti-Venezuela ou de buscar alternativas energéticas para a dependência que os EUA têm do petróleo. Minha opinião é que Bush vai ficar na vontade. Mas sempre devemos nos lembrar que uma coisa é o governo de plantão, outra coisa são os interesses de longo prazo dos Estados Unidos, que são uma nação imperialista há muito tempo.
Para muitos analistas, o governo Lula é o que tem mais condições, na América Latina, de mediar eventuais conflitos entre os interesses regionais e os dos EUA. Na sua opinião, o Brasil deve assumir este papel?
Não e sim. Explico: o continente americano é alvo, há mais de cinco séculos, dos interesses das grandes potências. Isto começou na época das colônias, com Espanha e Portugal, mas também França, Holanda e Inglaterra. A independência coincidiu com o aumento da influência inglesa. No final do século XIX em diante, cresceu a influência dos Estados Unidos, sob a qual ainda nos encontramos. Um de nossos objetivos estratégicos é acabar com a submissão do continente ao imperialismo em geral, e ao imperialismo norte-americano em particular. Atingir este objetivo envolverá um longo processo, que combinará diferentes formas de lutas: mobilizações sociais, eleição de novos governos (progressistas, nacionalistas, socialistas), desenvolvimento econômico com ampliação da igualdade, integração continental (aí incluída a integração de infra-estruturas econômicas, a integração política e cultural). Envolverá também revoluções, recurso indispensável aos povos que se encontram diante de situações inaceitáveis e de elites inamovíveis por outros métodos. Neste longo processo histórico, que durará várias décadas, haverá espaço para o conflito, para o impasse e também para a negociação. Neste sentido, o Brasil pode sim cumprir um papel de "mediador". Mas atenção: temos lado. Isto significa que podemos mediar, mas também devemos conflitar. E, quando eventualmente mediarmos, não o devemos fazer para abrir espaços aos Estados Unidos, mas sim para manter e ampliar os espaços da esquerda latino-americana. Hoje, na prática, isto significa, por exemplo: não contem com o Brasil para pressionar Cuba, Venezuela, Bolívia e o Equador. Para além disso, temos as relações comerciais entre os dois países, relações que – a exemplo da Venezuela, que é um grande fornecedor de petróleo para os EUA – nos interessam e que precisamos melhorar, a nosso favor.
O governo norte-americano não hesita em espalhar a guerra e em violar o direito internacional, bem como os direitos humanos, para defender seus interesses políticos e econômicos. Até que ponto a América Latina está livre desta ameaça? O fortalecimento da integração regional ajuda a afastar esse risco?
Os Estados Unidos em geral e o governo Bush em particular são de uma violência brutal. Nós só estaremos livres desta ameaça quando o povo norte-americano constituir um governo de esquerda e abrir um novo período na história daquele país. Até lá, precisamos estar preparados cotidianamente para todo tipo de agressão, desde as que se fazem longe (caso da guerra contra o Iraque e das ameaças contra o Irã), até as que se fazem perto (bloqueio contra Cuba, golpismo contra a Venezuela, tentativa de impor a Alca e tratados bilaterais etc.). Sem dúvida, a integração continental, em particular a integração sul-americana, constitui um meio importante de conter a violência dos gringos. Outro meio é o estabelecimento de relações diplomáticas sólidas com o resto do mundo, que enfrenta o mesmo problema: Rússia, China, continente africano, Europa.
De que maneira o PT irá participar das manifestações contra Bush durante sua passagem pelo Brasil?
Como fizemos em 2005, o PT apoiará as manifestações que os movimentos sociais estão convocando. O governo pode e deve receber o presidente Bush. Nosso partido pode e deve participar das mobilizações sociais contra o governo Bush.
João Paulo Soares, do Portal do PT
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Pomar: "Que Bush não conte com o Brasil para ações imperialistas na região"
O presidente norte-americano George W. Bush chega ao Brasil no próximo dia 8, para uma visita de dois dias, trazendo na bagagem bem mais do que propostas para melhorar as relações comerciais entre os dois países, segundo consta da pauta oficial. Desgastado politicamente, fora e dentro de casa, Bush também usa o giro pela América Latina como estratégia para sair da defensiva e recuperar a ascendência dos EUA sobre o cone Sul do Continente, abalada após a eleição de vários governos de esquerda comprometidos com as causas da soberania popular, da igualdade social e da integração regional.
Neste sentido, tem significado especial sua passagem pelo Brasil, que, segundo analistas, seria visto como o país ideal para mediar eventuais conflitos entre os EUA e governos como o de Hugo Chávez, na Venezuela, e o de Evo Morales, na Bolívia.
Para Valter Pomar, secretário de Relações Internacionais do PT, o Brasil pode, sim, cumprir o papel de “mediador”, mas sem abrir espaço às pretensões imperialistas norte-americanas. “Não contem com o Brasil para pressionar Cuba, Venezuela, Bolívia e o Equador”, avisa Pomar.
Em entrevista ao Portal do PT, o dirigente diz ainda que, dado caráter bélico dos EUA, a América Latina precisa estar “cotidianamente” preparada para todo tipo de agressão.
Para ele, a integração sul-americana e o estabelecimento de relações diplomáticas sólidas com o resto do mundo são mecanismo que ajudam a conter “a violência dos gringos”.
Leia abaixo a íntegra da entrevista:
Portal do PT: Qual o significado político da visita de Bush a países da América Latina, num momento em que vários deles reafirmam sua soberania e buscam na integração regional uma alternativa à histórica dependência norte-americana?
Valter Pomar: O governo Bush vive uma enorme crise. A invasão do Iraque transformou-se num impasse militar. As relações com a Rússia estão se deteriorando rapidamente. A crítica ao unilateralismo é cada vez maior, em todas as regiões. Na América Latina, os aliados dos Estados Unidos perderam a maior parte das eleições (no México, tiveram que apelar para a fraude). O projeto da Alca afundou, em parte devido à resistência popular e governamental latino-americana, em parte pela ausência de concessões por parte dos Estados Unidos. Os democratas ganharam as eleições parlamentares e devem ganhar as eleições presidenciais. Neste contexto, Bush busca sair da defensiva. Um exemplo disso é o aumento da pressão militar, tanto no Iraque quanto contra o Irã. Outro exemplo é esta visita a alguns países da América Latina, caso do México, da Colômbia, do Uruguai e do Brasil. Fala-se que por trás estaria o propósito de criar um eixo anti-Venezuela ou de buscar alternativas energéticas para a dependência que os EUA têm do petróleo. Minha opinião é que Bush vai ficar na vontade. Mas sempre devemos nos lembrar que uma coisa é o governo de plantão, outra coisa são os interesses de longo prazo dos Estados Unidos, que são uma nação imperialista há muito tempo.
Para muitos analistas, o governo Lula é o que tem mais condições, na América Latina, de mediar eventuais conflitos entre os interesses regionais e os dos EUA. Na sua opinião, o Brasil deve assumir este papel?
Não e sim. Explico: o continente americano é alvo, há mais de cinco séculos, dos interesses das grandes potências. Isto começou na época das colônias, com Espanha e Portugal, mas também França, Holanda e Inglaterra. A independência coincidiu com o aumento da influência inglesa. No final do século XIX em diante, cresceu a influência dos Estados Unidos, sob a qual ainda nos encontramos. Um de nossos objetivos estratégicos é acabar com a submissão do continente ao imperialismo em geral, e ao imperialismo norte-americano em particular. Atingir este objetivo envolverá um longo processo, que combinará diferentes formas de lutas: mobilizações sociais, eleição de novos governos (progressistas, nacionalistas, socialistas), desenvolvimento econômico com ampliação da igualdade, integração continental (aí incluída a integração de infra-estruturas econômicas, a integração política e cultural). Envolverá também revoluções, recurso indispensável aos povos que se encontram diante de situações inaceitáveis e de elites inamovíveis por outros métodos. Neste longo processo histórico, que durará várias décadas, haverá espaço para o conflito, para o impasse e também para a negociação. Neste sentido, o Brasil pode sim cumprir um papel de "mediador". Mas atenção: temos lado. Isto significa que podemos mediar, mas também devemos conflitar. E, quando eventualmente mediarmos, não o devemos fazer para abrir espaços aos Estados Unidos, mas sim para manter e ampliar os espaços da esquerda latino-americana. Hoje, na prática, isto significa, por exemplo: não contem com o Brasil para pressionar Cuba, Venezuela, Bolívia e o Equador. Para além disso, temos as relações comerciais entre os dois países, relações que – a exemplo da Venezuela, que é um grande fornecedor de petróleo para os EUA – nos interessam e que precisamos melhorar, a nosso favor.
O governo norte-americano não hesita em espalhar a guerra e em violar o direito internacional, bem como os direitos humanos, para defender seus interesses políticos e econômicos. Até que ponto a América Latina está livre desta ameaça? O fortalecimento da integração regional ajuda a afastar esse risco?
Os Estados Unidos em geral e o governo Bush em particular são de uma violência brutal. Nós só estaremos livres desta ameaça quando o povo norte-americano constituir um governo de esquerda e abrir um novo período na história daquele país. Até lá, precisamos estar preparados cotidianamente para todo tipo de agressão, desde as que se fazem longe (caso da guerra contra o Iraque e das ameaças contra o Irã), até as que se fazem perto (bloqueio contra Cuba, golpismo contra a Venezuela, tentativa de impor a Alca e tratados bilaterais etc.). Sem dúvida, a integração continental, em particular a integração sul-americana, constitui um meio importante de conter a violência dos gringos. Outro meio é o estabelecimento de relações diplomáticas sólidas com o resto do mundo, que enfrenta o mesmo problema: Rússia, China, continente africano, Europa.
De que maneira o PT irá participar das manifestações contra Bush durante sua passagem pelo Brasil?
Como fizemos em 2005, o PT apoiará as manifestações que os movimentos sociais estão convocando. O governo pode e deve receber o presidente Bush. Nosso partido pode e deve participar das mobilizações sociais contra o governo Bush.
João Paulo Soares, do Portal do PT
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A FRAUDE BUSH
ALTAMIRO BORGES - George Bush - uma fraude no poder
“Enviei um pedido pessoal ao secretário-geral das Nações Unidas para que ouça o nosso apelo. Não somos mais capazes de nos governar ou de realizar eleições livres e justas. Precisamos de observadores da ONU, de tropas da ONU, de resoluções da ONU”.
(Michael Moore, no livro “Uma nação de idiotas”).
George W. Bush chegou ao governo dos EUA graças a uma escandalosa fraude nas eleições presidenciais de novembro de 2000. Não é para menos que o cineasta Michael Moore, um de seus mais ácidos críticos, sempre o trata como “presidente” (entre aspas) ladrão! Pelo seu espantoso currículo – de estudante preso por embriagues e porte de cocaína; de empresário que levou à falência três empresas do ramo de petróleo; de político demagogo vinculado ao fanatismo religioso e aos grupos racistas; e de um homem de idéias radicalmente conservadoras e obscurantistas –, Bush nunca teria condições de chegar ao poder central da maior potência do planeta. Mas nos EUA, uma nação imperialista e ensimesmada, tudo é possível!
A eleição de 2000 se constituiu numa das maiores fraudes da história deste país, tornando-se motivo de galhofa no mundo inteiro. Apesar de ter recebido 539.898 votos populares a menos do que seu adversário, o democrata Al Gore, Bush foi beneficiado por uma vergonhosa sentença da Suprema Corte, que decidiu, por cinco votos a quatro, validar a irregular apuração na Flórida. Esta apuração, que se arrastou por quase 40 dias, foi coordenada pela secretária de Estado Katherine Harris, que, por coincidência, também era a co-presidente do comitê da campanha do Partido Republicano no Estado, por acaso governado pelo irmão Jeb Bush. Até hoje, muitos estadunidenses encaram a primeira eleição de Bush como um golpe de estado.
O “expurgo ético” na Flórida
Ao contrário do que alardeia a mídia hegemônica pelo mundo, as eleições nos EUA não são um exemplo de democracia e nunca foram um primor de honestidade. O presidente da “pátria da liberdade” é eleito de forma indireta num Colégio Eleitoral no qual nem sempre prevalece o resultado da votação popular – o que já ocorreu quatro vezes na história, inclusive na vitória de Bush. As regras aplicadas neste intrincado sistema eleitoral são excludentes e casuísticas, servindo ao governante de plantão. O venezuelano Hugo Chávez, que a mídia venal gosta de chamar de autoritário, mas que já venceu oito eleições diretas, é outro que sempre solicita ironicamente a intervenção da ONU “contra as fraudes nesta republiqueta ditatorial”.
Na eleição de 2000, as regras para escolher os delegados da Flórida no Colégio Eleitoral foram alteradas pouco antes do pleito. A reforma aprovada no Estado excluiu milhares de eleitores da lista de votantes, na maioria de negros. O racismo nos EUA já é uma chaga bastante conhecida. No país inteiro, 1,4 milhão de negros – 13% da população masculina negra – não pode votar por ter sofrido algum tipo de perseguição judicial. Katherine Harris agravou ainda mais esta discriminação, efetuando o que ficou conhecido como “expurgo ético”. Além dos milhares dos já excluídos nas eleições passadas, ela retirou da lista de votantes outras 58 mil pessoas, entre as quais estavam muitos ex-processados por meras infrações de trânsito.
Os ausentes e as borboletas
Com este golpe, a esposa de Jeb Bush, que já foi detida por agentes da imigração ao tentar contrabandear US$ 19 mil em jóias, pode votar; mas 31% de todos os negros da Flórida não tiveram este mesmo direito democrático. Somente em Miami-Dade, maior condado da Flórida, 66% dos excluídos eram negros. Essa decisão prejudicou enormemente o candidato democrata, que teve 90% dos votos dos negros, dos poucos que puderam exercer este direito, no pleito de 7 de novembro de 2000, segundo os institutos de pesquisa.
Além do “expurgo ético”, ocorreram outras irregularidades, como a da “lista dos ausentes”, que valida o voto por correspondência proveniente do exterior. A maioria dos beneficiários desta regra é composta de militares em serviço, que geralmente são simpatizantes dos republicanos. Caso estes votos não fossem computados a diferença entre os dois candidatos na Flórida seria de apenas sete votos a favor de Bush – e não de 537. Até a cédula eleitoral impressa no Estado, batizada de “cédula borboleta”, foi desenhada por uma republicana, a projetista Theresa LePore, que procurou confundir os eleitores. Segundo o jornal Palm Beach Post, mais de 3 mil eleitores, na maioria idosos, foram induzidos ao erro com esta tramóia.
Suprema Corte dos Republicanos
Cálculos parciais indicam que 87 mil votos foram roubados do democrata Al Gore em decorrência destas irregularidades nas listas de votantes – 162 vezes a mais do que a suposta margem de vitória de Bush na Flórida. Mesmo assim, a Suprema Corte dos EUA decidiu validar a vergonhosa fraude. Quatro dos juízes que votaram a favor desta roubalheira tinham nobres motivos políticos. Sandra O’Connor foi indicada por Ronald Reagan; já Willian Rehnquist foi bancado por Richard Nixon. Como republicanos de carteirinha, e já na casa dos setenta anos, eles almejavam por uma aposentadoria segura num governo republicano.
Já a esposa do juiz Thomaz Lamp trabalhava na Fundação Heritage, um dos principais centros de estudos dos conservadores na capital federal e fora contratada por Bush, pouco antes da eleição, para ajudar a recrutar pessoas para seu iminente governo. Já Eugene Scalia, filho do juiz Antonin Scalia, era advogado do escritório Gibson, Dunn & Crutcher, exatamente o escritório de advocacia que representa George Bush perante a Suprema Corte. Foi este juiz que deu a explicação mais estapafúrdia para seu voto no plenário: “A contagem de votos de legalidade questionável ameaça causar danos irreparáveis ao requerente [Bush] e ao país ao lançar uma mancha sobre o que ele alega ser a legitimidade da sua eleição”.
Na posse, o “viva o ladrão”
Em decorrência da roubalheira, Bush venceu as eleições de novembro de 2000 somente na Flórida, que é governada por seu irmão e detém 25 votos no Colégio Eleitoral. No restante do país, o democrata Al Gore ficou à frente do republicano tanto na votação popular (539.898 votos a mais), como no próprio Colégio (267 contra 246). Nem mesmo no Texas, então governada por Bush, o expurgo da lista de votantes de 66 mil ex-presidiários, garantiu a sua vitória. Mas no autoritário sistema eleitoral dos EUA, os 537 votos de Bush na Flórida valem mais do que 539.898 de diferença de Gore na votação popular. Baita democracia!
Questionado pelo resultado fraudulento da eleição e conhecido por sua sinistra biografia, George W. Bush tomou posse, em 20 de janeiro de 2001, totalmente desacreditado. A sua limusine blindada não conseguiu abafar os gritos de “viva o ladrão” de mais de 20 mil manifestantes presentes nas ruas de Washington. Ele sequer teve coragem de percorrer a pé os últimos quatro quarteirões antes de chegar ao Capitólio – o que já é tradição no país. Acuado, o início da sua gestão foi marcado pela completa inércia. Nos primeiros seis meses de governo, Bush visitou sete vezes seu rancho no Texas, num total de 54 dias de férias, passou 38 dias na residência de verão Camp Davis e mais quatro dias na casa de praia da família em Kenebunkport.
A salvação do “bobo incompetente”
O desgaste de sua imagem alimentou o humor de inúmeros chargistas e foi motivo de gozação em alguns programas de televisão, como no talk show de Dave Letterman, na CBS. Eles retratavam o novo ocupante da Casa Branca como um “preguiçoso”, um “bobo incompetente” e até como o boneco de ventríloquo do seu vice, Dick Cheney. Os jornais registraram que, até agosto, Bush passou quase metade do mandato de férias. Alguns humoristas insinuaram que “o presidente continuava sendo o mesmo garoto indolente que, na faculdade, preferia a baderna e o álcool (ou coisa mais forte) aos estudos”. Até entre os republicanos surgiram críticas a sua total inépcia; alguns chegaram a insinuar a possibilidade do impeachment.
George W. Bush também gerou fortes desconfianças no mundo. Num gesto abrupto, seu governo retirou o apoio ao Tribunal Criminal Internacional, assinado pelo antecessor Bill Clinton. Pouco depois, anunciou a sua recusa em assinar o Protocolo de Kyoto, sobre controle dos gases poluentes, e investiu contra Robert Watson, presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, por pressão direta, segundo memorando vazado na imprensa, de uma das financiadoras de sua campanha, a Exxon. Ainda abandonou o tratado dos mísseis antibalísticos (ABM), voltou atrás na política de dez anos de eliminação das minas terrestres e iniciou a sabotagem ao tratado de proibição dos testes nucleares (CTBT). Ficou patente a sua visão militarista e seu unilateralismo na condução da política externa, o que gerou temores no mundo.
Somente após os suspeitos atentados de 11 de setembro de 2001 é que George W. Bush tomou posse, de fato, na presidência dos EUA. Como afirma o jornalista Argemiro Ferreiro, no excelente livro “O império contra-ataca”, eles ressuscitaram o isolado presidente. “O ex-executivo sem qualificações para dirigir empresas de petróleo de pequeno porte, derrotado na votação popular do país por mais de meio milhão de votos, mas beneficiado pela decisão político-partidária de cinco juízes da Suprema Corte, tornou-se, da noite para o dia – graças às falhas de seu governo, que permitiram o êxito de uma operação terrorista impossível – no mais integro, competente e patriota dos governantes e líderes que a história já conheceu”.
Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “Venezuela: originalidade e ousadia” (Editora Anita Garibaldi, 3ª edição).
“Enviei um pedido pessoal ao secretário-geral das Nações Unidas para que ouça o nosso apelo. Não somos mais capazes de nos governar ou de realizar eleições livres e justas. Precisamos de observadores da ONU, de tropas da ONU, de resoluções da ONU”.
(Michael Moore, no livro “Uma nação de idiotas”).
George W. Bush chegou ao governo dos EUA graças a uma escandalosa fraude nas eleições presidenciais de novembro de 2000. Não é para menos que o cineasta Michael Moore, um de seus mais ácidos críticos, sempre o trata como “presidente” (entre aspas) ladrão! Pelo seu espantoso currículo – de estudante preso por embriagues e porte de cocaína; de empresário que levou à falência três empresas do ramo de petróleo; de político demagogo vinculado ao fanatismo religioso e aos grupos racistas; e de um homem de idéias radicalmente conservadoras e obscurantistas –, Bush nunca teria condições de chegar ao poder central da maior potência do planeta. Mas nos EUA, uma nação imperialista e ensimesmada, tudo é possível!
A eleição de 2000 se constituiu numa das maiores fraudes da história deste país, tornando-se motivo de galhofa no mundo inteiro. Apesar de ter recebido 539.898 votos populares a menos do que seu adversário, o democrata Al Gore, Bush foi beneficiado por uma vergonhosa sentença da Suprema Corte, que decidiu, por cinco votos a quatro, validar a irregular apuração na Flórida. Esta apuração, que se arrastou por quase 40 dias, foi coordenada pela secretária de Estado Katherine Harris, que, por coincidência, também era a co-presidente do comitê da campanha do Partido Republicano no Estado, por acaso governado pelo irmão Jeb Bush. Até hoje, muitos estadunidenses encaram a primeira eleição de Bush como um golpe de estado.
O “expurgo ético” na Flórida
Ao contrário do que alardeia a mídia hegemônica pelo mundo, as eleições nos EUA não são um exemplo de democracia e nunca foram um primor de honestidade. O presidente da “pátria da liberdade” é eleito de forma indireta num Colégio Eleitoral no qual nem sempre prevalece o resultado da votação popular – o que já ocorreu quatro vezes na história, inclusive na vitória de Bush. As regras aplicadas neste intrincado sistema eleitoral são excludentes e casuísticas, servindo ao governante de plantão. O venezuelano Hugo Chávez, que a mídia venal gosta de chamar de autoritário, mas que já venceu oito eleições diretas, é outro que sempre solicita ironicamente a intervenção da ONU “contra as fraudes nesta republiqueta ditatorial”.
Na eleição de 2000, as regras para escolher os delegados da Flórida no Colégio Eleitoral foram alteradas pouco antes do pleito. A reforma aprovada no Estado excluiu milhares de eleitores da lista de votantes, na maioria de negros. O racismo nos EUA já é uma chaga bastante conhecida. No país inteiro, 1,4 milhão de negros – 13% da população masculina negra – não pode votar por ter sofrido algum tipo de perseguição judicial. Katherine Harris agravou ainda mais esta discriminação, efetuando o que ficou conhecido como “expurgo ético”. Além dos milhares dos já excluídos nas eleições passadas, ela retirou da lista de votantes outras 58 mil pessoas, entre as quais estavam muitos ex-processados por meras infrações de trânsito.
Os ausentes e as borboletas
Com este golpe, a esposa de Jeb Bush, que já foi detida por agentes da imigração ao tentar contrabandear US$ 19 mil em jóias, pode votar; mas 31% de todos os negros da Flórida não tiveram este mesmo direito democrático. Somente em Miami-Dade, maior condado da Flórida, 66% dos excluídos eram negros. Essa decisão prejudicou enormemente o candidato democrata, que teve 90% dos votos dos negros, dos poucos que puderam exercer este direito, no pleito de 7 de novembro de 2000, segundo os institutos de pesquisa.
Além do “expurgo ético”, ocorreram outras irregularidades, como a da “lista dos ausentes”, que valida o voto por correspondência proveniente do exterior. A maioria dos beneficiários desta regra é composta de militares em serviço, que geralmente são simpatizantes dos republicanos. Caso estes votos não fossem computados a diferença entre os dois candidatos na Flórida seria de apenas sete votos a favor de Bush – e não de 537. Até a cédula eleitoral impressa no Estado, batizada de “cédula borboleta”, foi desenhada por uma republicana, a projetista Theresa LePore, que procurou confundir os eleitores. Segundo o jornal Palm Beach Post, mais de 3 mil eleitores, na maioria idosos, foram induzidos ao erro com esta tramóia.
Suprema Corte dos Republicanos
Cálculos parciais indicam que 87 mil votos foram roubados do democrata Al Gore em decorrência destas irregularidades nas listas de votantes – 162 vezes a mais do que a suposta margem de vitória de Bush na Flórida. Mesmo assim, a Suprema Corte dos EUA decidiu validar a vergonhosa fraude. Quatro dos juízes que votaram a favor desta roubalheira tinham nobres motivos políticos. Sandra O’Connor foi indicada por Ronald Reagan; já Willian Rehnquist foi bancado por Richard Nixon. Como republicanos de carteirinha, e já na casa dos setenta anos, eles almejavam por uma aposentadoria segura num governo republicano.
Já a esposa do juiz Thomaz Lamp trabalhava na Fundação Heritage, um dos principais centros de estudos dos conservadores na capital federal e fora contratada por Bush, pouco antes da eleição, para ajudar a recrutar pessoas para seu iminente governo. Já Eugene Scalia, filho do juiz Antonin Scalia, era advogado do escritório Gibson, Dunn & Crutcher, exatamente o escritório de advocacia que representa George Bush perante a Suprema Corte. Foi este juiz que deu a explicação mais estapafúrdia para seu voto no plenário: “A contagem de votos de legalidade questionável ameaça causar danos irreparáveis ao requerente [Bush] e ao país ao lançar uma mancha sobre o que ele alega ser a legitimidade da sua eleição”.
Na posse, o “viva o ladrão”
Em decorrência da roubalheira, Bush venceu as eleições de novembro de 2000 somente na Flórida, que é governada por seu irmão e detém 25 votos no Colégio Eleitoral. No restante do país, o democrata Al Gore ficou à frente do republicano tanto na votação popular (539.898 votos a mais), como no próprio Colégio (267 contra 246). Nem mesmo no Texas, então governada por Bush, o expurgo da lista de votantes de 66 mil ex-presidiários, garantiu a sua vitória. Mas no autoritário sistema eleitoral dos EUA, os 537 votos de Bush na Flórida valem mais do que 539.898 de diferença de Gore na votação popular. Baita democracia!
Questionado pelo resultado fraudulento da eleição e conhecido por sua sinistra biografia, George W. Bush tomou posse, em 20 de janeiro de 2001, totalmente desacreditado. A sua limusine blindada não conseguiu abafar os gritos de “viva o ladrão” de mais de 20 mil manifestantes presentes nas ruas de Washington. Ele sequer teve coragem de percorrer a pé os últimos quatro quarteirões antes de chegar ao Capitólio – o que já é tradição no país. Acuado, o início da sua gestão foi marcado pela completa inércia. Nos primeiros seis meses de governo, Bush visitou sete vezes seu rancho no Texas, num total de 54 dias de férias, passou 38 dias na residência de verão Camp Davis e mais quatro dias na casa de praia da família em Kenebunkport.
A salvação do “bobo incompetente”
O desgaste de sua imagem alimentou o humor de inúmeros chargistas e foi motivo de gozação em alguns programas de televisão, como no talk show de Dave Letterman, na CBS. Eles retratavam o novo ocupante da Casa Branca como um “preguiçoso”, um “bobo incompetente” e até como o boneco de ventríloquo do seu vice, Dick Cheney. Os jornais registraram que, até agosto, Bush passou quase metade do mandato de férias. Alguns humoristas insinuaram que “o presidente continuava sendo o mesmo garoto indolente que, na faculdade, preferia a baderna e o álcool (ou coisa mais forte) aos estudos”. Até entre os republicanos surgiram críticas a sua total inépcia; alguns chegaram a insinuar a possibilidade do impeachment.
George W. Bush também gerou fortes desconfianças no mundo. Num gesto abrupto, seu governo retirou o apoio ao Tribunal Criminal Internacional, assinado pelo antecessor Bill Clinton. Pouco depois, anunciou a sua recusa em assinar o Protocolo de Kyoto, sobre controle dos gases poluentes, e investiu contra Robert Watson, presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, por pressão direta, segundo memorando vazado na imprensa, de uma das financiadoras de sua campanha, a Exxon. Ainda abandonou o tratado dos mísseis antibalísticos (ABM), voltou atrás na política de dez anos de eliminação das minas terrestres e iniciou a sabotagem ao tratado de proibição dos testes nucleares (CTBT). Ficou patente a sua visão militarista e seu unilateralismo na condução da política externa, o que gerou temores no mundo.
Somente após os suspeitos atentados de 11 de setembro de 2001 é que George W. Bush tomou posse, de fato, na presidência dos EUA. Como afirma o jornalista Argemiro Ferreiro, no excelente livro “O império contra-ataca”, eles ressuscitaram o isolado presidente. “O ex-executivo sem qualificações para dirigir empresas de petróleo de pequeno porte, derrotado na votação popular do país por mais de meio milhão de votos, mas beneficiado pela decisão político-partidária de cinco juízes da Suprema Corte, tornou-se, da noite para o dia – graças às falhas de seu governo, que permitiram o êxito de uma operação terrorista impossível – no mais integro, competente e patriota dos governantes e líderes que a história já conheceu”.
Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “Venezuela: originalidade e ousadia” (Editora Anita Garibaldi, 3ª edição).
BUSH, CHEFÃO DO TERRORISMO INTERNACIONAL
ALTAMIRO BORGES - George Bush, o chefão do terrorismo internacional
Logo após os atentados de 11 de setembro de 2001, em que três aviões derrubaram as “torres gêmeas” do World Trade Center, símbolo da ostentação capitalista, e atingiram as laterais do Pentágono, símbolo do poder do império, George W. Bush declarou: “Sou um presidente em guerra”, um war president. Já o seu vice, Dick Cheney, vinculado à indústria petrolífera, foi ainda mais assustador: “É diferente da guerra do Golfo [no governo de Bush-pai] no sentido de que ela pode não terminar nunca, pelo menos não no nosso tempo de vida”. Aqueles episódios trágicos mudariam os rumos da história e fariam a política terrorista-imperialista dos EUA atingir o seu ápice, colocando em risco a própria sobrevivência da humanidade.
Na sua história expansionista, os EUA já organizaram, financiaram e participaram de inúmeras guerras. A própria formação do país está manchada de sangue, com o extermínio de povos indígenas e a anexação de terras mexicanas. Para manter sua hegemonia no “quintal” latino-americano, os EUA também realizaram várias intervenções armadas em nações soberanas e bancaram golpes militares, ditaduras cruéis, atentados terroristas e assassinatos de líderes populares e nacionalistas. Já para ampliar a sua hegemonia planetária, lançaram as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, apoiaram genocídios na Ásia e na África, deram proteção a ditadores sanguinários e tornaram-se os recordistas mundiais no tráfico de armas.
“Tirando partido da tragédia”
A ação terrorista-imperialista dos EUA ainda será condenada pelo tribunal da história. O julgamento será ainda mais duro após a chegada de George W. Bush à presidência dos EUA, em janeiro de 2001. A maior potência do mundo é hoje dirigida por um homem que se considera “um enviado de Deus” e que mantém promiscuas relações com o poderoso “complexo militar-industrial”, que reúne fábricas de armamentos, corporações do petróleo e grandes bancos. Os suspeitos atentados de 11 de setembro serviram para retirar um desgastado Bush, eleito de forma fraudulenta, do seu isolamento e para justificar suas ações terroristas no Afeganistão e Iraque visando ampliar, numa escala sem precedentes, a hegemonia mundial dos EUA.
Segundo Richard Clark, assessor militar do Conselho de Segurança Nacional, os ataques foram utilizados para concluir o que Bush-pai deixara inconcluso. Tendo servido a quatro presidentes, Clark foi acionando quando dos episódios e lamenta. “Depois percebi com dor aguda, quase física, que estavam tentando tirar partido daquela tragédia nacional para promover a agenda deles no Iraque”. Paul O’Neill, ex-secretário do Tesouro, também registra em seu livro que o Iraque era uma obsessão de Bush antes dos atentados. Nas reuniões ministeriais, “ele era como um cego numa sala cheia de pessoas surdas”. A ocupação terrorista inclusive já estava detalhada, com os mapas das áreas potenciais de exploração do petróleo iraquiano.
A estratégia da Pax Americana
O plano para a expansão imperialista dos EUA, para a construção da chamada Pax Americana, já estava delineado desde o desmoronamento do bloco soviético. Com o fim da chamada “guerra fria” e da temida “ameaça comunista”, muitos iludidos apostaram em seus efeitos positivos com o fim da bilionária corrida armamentista – entre 1949/1991, os EUA gastaram US$ 7,1 trilhões na “defesa nacional”. Mas este nunca fora o projeto do poderoso “complexo militar-industrial” que domina a política ianque. Após a débâcle do bloco soviético, uma nova doutrina fascista emergiu deste grupo, a de estender o domínio anterior, num mundo bipolar, para a dominação completa do planeta, com a construção de uma potência unipolar.
Esta passou a ser a ambição das empresas que fizeram fortuna como fornecedoras de armas ao Pentágono durante a “guerra fria” e das corporações do petróleo, sequiosas pelas reservas do Oriente Médio. Nele estavam envolvidas empresas que ascenderam ao poder com a eleição de George H. W. Bush, o Bush-pai, como a Chevron, que batizou um petroleiro de 130 mil toneladas com o nome de Condoleezza Rice, ex-integrante do seu conselho de direção, e a Halliberton, que foi presidida pelo próprio Dick Cheney. Em 1992, na campanha por sua reeleição, este projeto já havia sido traçado pelos ideólogos ultradireitistas do Partido Republicano, os neocons, e pelos fanáticos religiosos que rodeavam a família Bush, os theocons.
Em março de 1992, o New York Times vazou um documento interno do Pentágono (DPG) que continha os detalhes desta estratégia para substituir a política da “guerra fria”. Ele já pregava a Pax Americana, com a existência de uma única superpotência mundial, com direito à ação unilateral, à guerra preventiva e ao uso de força, inclusive contra históricos aliados que se atravessem a reforçar seu poderio militar. Ele já tratava a região asiática – o Iraque, em especial – como estratégica neste projeto geopolítico. Mas seu vazamento gerou forte reação dos aliados e desgastou a imagem de Bush, contribuindo para as duas derrotas seguidas dos republicanos. O plano foi parcialmente “suavizado” durante os oito anos do “democrata” Bill Clinton.
“Identificar e destruir”
Em janeiro de 2001, porém, os neocons e os theocons finalmente retornaram ao poder, desta feita através da figura caricata de George W. Bush, o baby-Bush, o 43º presidente dos EUA. Estavam sendo criadas as condições para desarquivar a controvertida Orientação da Política de Defesa (DPG), elaborada em 1992 – depois atualizada, em 1997, com o nome de Projeto Novo Século Americano (PNAC), e que teve nova redação, em setembro de 2000, com o relatório Reconstruindo as Defesas da América (RAD). Como se observa, o projeto terrorista dos EUA, rebatizado de Estratégia de Segurança Nacional (NSS) e divulgado com pompa por baby-Bush em setembro de 2002, já estava pronto há quase uma década!
A versão original não deixava margem à dúvida sobre a agressividade imperialista. Já falava abertamente em promover “ações unilaterais”, sem qualquer consulta aos organismos internacionais, para promover os “valores americanos” da democracia liberal e do “livre mercado”. De forma grosseira, a DPG alegava que “sem a União Soviética, somos a única superpotência e o nosso objetivo número um deve ser o de manter as coisas assim”. Num outro ponto, esbravejava: “Não admitimos dividir nossa posição com ninguém”. O texto já antecipava a idéia das “guerras preventivas” e relativiza o conceito da soberania das nações.
Já o documento Estratégia de Segurança Nacional (NSS) só fez confirmar esta política belicosa. Nas suas 33 páginas, o texto escrito sob a direção de Condoleezza Rice era altamente agressivo. “Defenderemos os EUA, o povo americano e nossos interesses em casa e no exterior, identificando e destruindo as ameaças antes que elas cheguem às nossas fronteiras. Ao mesmo tempo em que os EUA tentarão recrutar o apoio da comunidade internacional, não hesitaremos em agir sozinhos, se necessário, para exercer nosso direito de autodefesa, agindo de maneira preventiva”. A NSS já previa a instalação de “bases americanas dentro e além da Europa Ocidental e do Nordeste Asiático” e o aumento do gasto militar anual de US$ 350 bilhões para mais de US$ 500 bilhões – fora os US$ 40 bilhões por ano para manter 150 mil soldados no Iraque.
Falso “combate ao terrorismo”
Lendo estes documentos, fica patente que os atentados de 11 de setembro serviram somente de pretexto para colocar em prática esta visão terrorista-imperialista. Sem as suspeitas ações comandadas por Osama bin Laden, por acaso um antigo aliado dos EUA na luta contra os soviéticos no Afeganistão, seria difícil emplacar nos EUA e na comunidade internacional um projeto tão belicista e belicoso. No passado, para justificar a histeria da “guerra fria”, a Doutrina Truman criou a imagem do “perigo comunista”. Agora, os atentados ajudaram a criar o clima do “perigo terrorista” e do “choque de civilizações”. O primeiro alvo desta estratégia imperial foi o Afeganistão, um país mais frágil e isolado no tabuleiro mundial.
Mesmo após o governo afegão, sob o controle dos antigos aliados do Talibã, ter proposto entregar Osama Bin Laden a um país neutro e ter concordado com seu julgamento, mas sob as leis islâmicas, os EUA iniciaram o covarde bombardeio ao país em 7 de outubro de 2001. Uma semana após o início dos ataques aéreos, a proposta de paz foi reiterada, mas a resposta de Bush foi reveladora: “Não há necessidade de se negociar. Não temos que discutir se ele [Bin Laden] é inocente ou culpado. Sabemos que é culpado”. Na verdade, a captura do suspeito terrorista não era a prioridade dos EUA, que poderiam tê-la conseguido por meios pacíficos. Sua extradição, reiterada pelo Talibã, faria desaparecer o real motivo da guerra!
700 mil mortos no Iraque
A invasão do Afeganistão fazia parte de um plano maior; visava criar o clima para a ocupação do Iraque e o domínio daquela região estratégica. As cruéis sanções impostas ao Iraque pelo Conselho de Segurança da ONU, que causaram a morte de meio milhão de crianças e de um milhão de adultos, segundo cálculos da própria Unicef, nunca sensibilizaram os falcões republicanos. Diferentemente da secretária de Estado Madeleine Albright, proponente das sanções durante o governo do “democrata” Bill Clinton, que declarou que a morte de meio milhão de crianças “foi um preço que valeu a pena”, os neocons e os theocons nunca se contentaram apenas com as sanções. Desde Bush-pai, sempre sonharam em ocupar militarmente o país.
O saldo do terrorismo de Estado dos EUA é que desde o início desta brutal guerra de ocupação, em março de 2003, já morreram cerca de 700 mil iraquianos e mais de 3 mil soldados ianques – além de milhares de “mercenários modernos” contratados pelo governo Bush e pelas corporações que hoje exploram o país. O custo desta empreitada insana e genocida, segundo estimativa recente de Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, já supera os US$ 2,2 trilhões – para a alegria do “complexo militar-industrial” dos EUA. Não é para menos que George W. Bush, chefão do terrorismo internacional, recebeu as maiores contribuições financeiras desta “indústria da morte” na campanha para a sua reeleição em 2004.
Logo após os atentados de 11 de setembro de 2001, em que três aviões derrubaram as “torres gêmeas” do World Trade Center, símbolo da ostentação capitalista, e atingiram as laterais do Pentágono, símbolo do poder do império, George W. Bush declarou: “Sou um presidente em guerra”, um war president. Já o seu vice, Dick Cheney, vinculado à indústria petrolífera, foi ainda mais assustador: “É diferente da guerra do Golfo [no governo de Bush-pai] no sentido de que ela pode não terminar nunca, pelo menos não no nosso tempo de vida”. Aqueles episódios trágicos mudariam os rumos da história e fariam a política terrorista-imperialista dos EUA atingir o seu ápice, colocando em risco a própria sobrevivência da humanidade.
Na sua história expansionista, os EUA já organizaram, financiaram e participaram de inúmeras guerras. A própria formação do país está manchada de sangue, com o extermínio de povos indígenas e a anexação de terras mexicanas. Para manter sua hegemonia no “quintal” latino-americano, os EUA também realizaram várias intervenções armadas em nações soberanas e bancaram golpes militares, ditaduras cruéis, atentados terroristas e assassinatos de líderes populares e nacionalistas. Já para ampliar a sua hegemonia planetária, lançaram as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, apoiaram genocídios na Ásia e na África, deram proteção a ditadores sanguinários e tornaram-se os recordistas mundiais no tráfico de armas.
“Tirando partido da tragédia”
A ação terrorista-imperialista dos EUA ainda será condenada pelo tribunal da história. O julgamento será ainda mais duro após a chegada de George W. Bush à presidência dos EUA, em janeiro de 2001. A maior potência do mundo é hoje dirigida por um homem que se considera “um enviado de Deus” e que mantém promiscuas relações com o poderoso “complexo militar-industrial”, que reúne fábricas de armamentos, corporações do petróleo e grandes bancos. Os suspeitos atentados de 11 de setembro serviram para retirar um desgastado Bush, eleito de forma fraudulenta, do seu isolamento e para justificar suas ações terroristas no Afeganistão e Iraque visando ampliar, numa escala sem precedentes, a hegemonia mundial dos EUA.
Segundo Richard Clark, assessor militar do Conselho de Segurança Nacional, os ataques foram utilizados para concluir o que Bush-pai deixara inconcluso. Tendo servido a quatro presidentes, Clark foi acionando quando dos episódios e lamenta. “Depois percebi com dor aguda, quase física, que estavam tentando tirar partido daquela tragédia nacional para promover a agenda deles no Iraque”. Paul O’Neill, ex-secretário do Tesouro, também registra em seu livro que o Iraque era uma obsessão de Bush antes dos atentados. Nas reuniões ministeriais, “ele era como um cego numa sala cheia de pessoas surdas”. A ocupação terrorista inclusive já estava detalhada, com os mapas das áreas potenciais de exploração do petróleo iraquiano.
A estratégia da Pax Americana
O plano para a expansão imperialista dos EUA, para a construção da chamada Pax Americana, já estava delineado desde o desmoronamento do bloco soviético. Com o fim da chamada “guerra fria” e da temida “ameaça comunista”, muitos iludidos apostaram em seus efeitos positivos com o fim da bilionária corrida armamentista – entre 1949/1991, os EUA gastaram US$ 7,1 trilhões na “defesa nacional”. Mas este nunca fora o projeto do poderoso “complexo militar-industrial” que domina a política ianque. Após a débâcle do bloco soviético, uma nova doutrina fascista emergiu deste grupo, a de estender o domínio anterior, num mundo bipolar, para a dominação completa do planeta, com a construção de uma potência unipolar.
Esta passou a ser a ambição das empresas que fizeram fortuna como fornecedoras de armas ao Pentágono durante a “guerra fria” e das corporações do petróleo, sequiosas pelas reservas do Oriente Médio. Nele estavam envolvidas empresas que ascenderam ao poder com a eleição de George H. W. Bush, o Bush-pai, como a Chevron, que batizou um petroleiro de 130 mil toneladas com o nome de Condoleezza Rice, ex-integrante do seu conselho de direção, e a Halliberton, que foi presidida pelo próprio Dick Cheney. Em 1992, na campanha por sua reeleição, este projeto já havia sido traçado pelos ideólogos ultradireitistas do Partido Republicano, os neocons, e pelos fanáticos religiosos que rodeavam a família Bush, os theocons.
Em março de 1992, o New York Times vazou um documento interno do Pentágono (DPG) que continha os detalhes desta estratégia para substituir a política da “guerra fria”. Ele já pregava a Pax Americana, com a existência de uma única superpotência mundial, com direito à ação unilateral, à guerra preventiva e ao uso de força, inclusive contra históricos aliados que se atravessem a reforçar seu poderio militar. Ele já tratava a região asiática – o Iraque, em especial – como estratégica neste projeto geopolítico. Mas seu vazamento gerou forte reação dos aliados e desgastou a imagem de Bush, contribuindo para as duas derrotas seguidas dos republicanos. O plano foi parcialmente “suavizado” durante os oito anos do “democrata” Bill Clinton.
“Identificar e destruir”
Em janeiro de 2001, porém, os neocons e os theocons finalmente retornaram ao poder, desta feita através da figura caricata de George W. Bush, o baby-Bush, o 43º presidente dos EUA. Estavam sendo criadas as condições para desarquivar a controvertida Orientação da Política de Defesa (DPG), elaborada em 1992 – depois atualizada, em 1997, com o nome de Projeto Novo Século Americano (PNAC), e que teve nova redação, em setembro de 2000, com o relatório Reconstruindo as Defesas da América (RAD). Como se observa, o projeto terrorista dos EUA, rebatizado de Estratégia de Segurança Nacional (NSS) e divulgado com pompa por baby-Bush em setembro de 2002, já estava pronto há quase uma década!
A versão original não deixava margem à dúvida sobre a agressividade imperialista. Já falava abertamente em promover “ações unilaterais”, sem qualquer consulta aos organismos internacionais, para promover os “valores americanos” da democracia liberal e do “livre mercado”. De forma grosseira, a DPG alegava que “sem a União Soviética, somos a única superpotência e o nosso objetivo número um deve ser o de manter as coisas assim”. Num outro ponto, esbravejava: “Não admitimos dividir nossa posição com ninguém”. O texto já antecipava a idéia das “guerras preventivas” e relativiza o conceito da soberania das nações.
Já o documento Estratégia de Segurança Nacional (NSS) só fez confirmar esta política belicosa. Nas suas 33 páginas, o texto escrito sob a direção de Condoleezza Rice era altamente agressivo. “Defenderemos os EUA, o povo americano e nossos interesses em casa e no exterior, identificando e destruindo as ameaças antes que elas cheguem às nossas fronteiras. Ao mesmo tempo em que os EUA tentarão recrutar o apoio da comunidade internacional, não hesitaremos em agir sozinhos, se necessário, para exercer nosso direito de autodefesa, agindo de maneira preventiva”. A NSS já previa a instalação de “bases americanas dentro e além da Europa Ocidental e do Nordeste Asiático” e o aumento do gasto militar anual de US$ 350 bilhões para mais de US$ 500 bilhões – fora os US$ 40 bilhões por ano para manter 150 mil soldados no Iraque.
Falso “combate ao terrorismo”
Lendo estes documentos, fica patente que os atentados de 11 de setembro serviram somente de pretexto para colocar em prática esta visão terrorista-imperialista. Sem as suspeitas ações comandadas por Osama bin Laden, por acaso um antigo aliado dos EUA na luta contra os soviéticos no Afeganistão, seria difícil emplacar nos EUA e na comunidade internacional um projeto tão belicista e belicoso. No passado, para justificar a histeria da “guerra fria”, a Doutrina Truman criou a imagem do “perigo comunista”. Agora, os atentados ajudaram a criar o clima do “perigo terrorista” e do “choque de civilizações”. O primeiro alvo desta estratégia imperial foi o Afeganistão, um país mais frágil e isolado no tabuleiro mundial.
Mesmo após o governo afegão, sob o controle dos antigos aliados do Talibã, ter proposto entregar Osama Bin Laden a um país neutro e ter concordado com seu julgamento, mas sob as leis islâmicas, os EUA iniciaram o covarde bombardeio ao país em 7 de outubro de 2001. Uma semana após o início dos ataques aéreos, a proposta de paz foi reiterada, mas a resposta de Bush foi reveladora: “Não há necessidade de se negociar. Não temos que discutir se ele [Bin Laden] é inocente ou culpado. Sabemos que é culpado”. Na verdade, a captura do suspeito terrorista não era a prioridade dos EUA, que poderiam tê-la conseguido por meios pacíficos. Sua extradição, reiterada pelo Talibã, faria desaparecer o real motivo da guerra!
700 mil mortos no Iraque
A invasão do Afeganistão fazia parte de um plano maior; visava criar o clima para a ocupação do Iraque e o domínio daquela região estratégica. As cruéis sanções impostas ao Iraque pelo Conselho de Segurança da ONU, que causaram a morte de meio milhão de crianças e de um milhão de adultos, segundo cálculos da própria Unicef, nunca sensibilizaram os falcões republicanos. Diferentemente da secretária de Estado Madeleine Albright, proponente das sanções durante o governo do “democrata” Bill Clinton, que declarou que a morte de meio milhão de crianças “foi um preço que valeu a pena”, os neocons e os theocons nunca se contentaram apenas com as sanções. Desde Bush-pai, sempre sonharam em ocupar militarmente o país.
O saldo do terrorismo de Estado dos EUA é que desde o início desta brutal guerra de ocupação, em março de 2003, já morreram cerca de 700 mil iraquianos e mais de 3 mil soldados ianques – além de milhares de “mercenários modernos” contratados pelo governo Bush e pelas corporações que hoje exploram o país. O custo desta empreitada insana e genocida, segundo estimativa recente de Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, já supera os US$ 2,2 trilhões – para a alegria do “complexo militar-industrial” dos EUA. Não é para menos que George W. Bush, chefão do terrorismo internacional, recebeu as maiores contribuições financeiras desta “indústria da morte” na campanha para a sua reeleição em 2004.
O FANATISMO RELIGIOSO DE GEORGE BUSH
ALTAMIRO BORGES - O fanatismo religioso de George Bush
“Bush acha que Deus fala com ele... Ele se julga em missão divina... Reiterou que sua missão é ditada do alto, a pretexto de que ‘a liberdade é uma dádiva do todo-poderoso’... Essencialmente, o que ele disse foi ter sido ‘convocado’ para esse papel... George W. Bush foi colocado na Casa Branca por Deus”.
Bob Woodward, no livro Plan of attack, com base em declarações do próprio presidente-maníaco.
Na sua “guerra infinita” contra o “eixo do mal”, o presidente George W. Bush tenta estigmatizar todas as demais culturas e religiões do mundo. Apresenta-as como se fossem coisas “demoníacas” de “fanáticos”. Um dos mentores desta onda conservadora, Samuel Huntington, inclusive escreveu um livro defendendo que o maior problema do planeta na atualidade é o “choque de civilizações”. Esta teoria insana substituiu o célebre e desastroso conceito sobre o “fim da história”, do descartado Francis Fukuyama. É nela que o fundamentalista George W. Bush se baseia para justificar as suas agressões terroristas no planeta.
Escrito em 1993, o livro de cabeceira dos republicanos afirma que o mundo vive uma fase de transição e que a maior ameaça ao “ocidente” viria da chamada “conexão islâmica-confuciana”, incluindo os países árabes e a perigosa China. Diante deste cenário apocalíptico, Huntington sugere que o “mundo ocidental” deve usar meios militares para desestabilizar as “civilizações hostis” e preservar a sua hegemonia. “Um mundo sem o primado americano terá mais violência e desordem, menos democracia e crescimento, do que um mundo no qual os EUA continuem a ter mais influência do que qualquer outro país na formação dos negócios globais”. Os atentados de 11 de setembro seriam a prova cabal do acerto desta “teoria”.
“Enviado de Deus na Terra”
Por detrás desta “teoria insana” se escondem muitos tiranos maníacos. A mídia hegemônica, que costuma fazer grosseiras caricaturas do islamismo e de outros credos, não enfatiza que o próprio George W. Bush é um ativo partidário da intolerância e do fanatismo religioso. Ele jura que é um “enviado de Deus na terra” – ou, como escreveu um colunista do Washington Post, “é o próprio aiatolá da América”. Na sessão conjunta do Congresso de setembro de 2001, quando decretou sua “guerra infinita”, o atual presidente dos EUA esbravejou: “Ou você está conosco, ou está com os terroristas. De hoje em diante, qualquer nação que continuar a acolher ou apoiar o terrorismo será encarada pelos EUA como regime hostil”.
Foi nesta ocasião que Bush pregou a “cruzada contra o terrorismo”, numa versão cristã da Jihad, a guerra santa dos mulçumanos. Poucos dias depois, o pastor Jerry Falwell, um de seus “conselheiros espirituais”, aproveitou o clima de histeria decorrente dos atentados de 11 de setembro para afirmar que “Maomé é terrorista”. Já o reverendo Pat Robertson disse que aquele ataque fora “um castigo de Deus por causa da legalização aborto e da ação das feministas e gays”. E a jornalista Ann Coulter, entusiasta da “guerra santa”, escreveu: “Devíamos invadir o país deles, matar os líderes deles e convertê-los ao cristianismo”.
O “renascimento em Cristo”
De há muito que a família Bush explora a religiosidade dos estadunidenses para escamotear seus negócios ilícitos e justificar sua política ultraconservadora. Segundo vários dos seus biógrafos, após uma longa fase de “beberrão a arruaceiro”, o atual presidente difundiu amplamente a imagem do “renascido em Cristo” – horn again Christian –, o que rende muitos votos no segmento mais atrasado do eleitorado. Ele inclusive passou a fazer pregações em igrejas e nos shows evangélicos de televisão, nos quais satanizava as demais religiões e dizia que relia a Bíblia a cada dois anos. O reverendo Tony Evans, seu confidente em Dallas quando ele era governador do Texas, relata que Bush “sentia que Deus falava com ele”. Ele mesmo dizia que rezava várias vezes ao dia “para ser, tanto quanto possível, um bom mensageiro da vontade de Deus”.
Bush gostava de relatar que o seu “renascimento em Cristo” se dera com a ajuda do pastor midiático Billy Grahan, cultuado como o “estadista evangélico da América”. Grahan é um antigo conselheiro espiritual da família Bush, tendo passado várias férias na residência de praia em Kenneebunkport, no extremo oeste dos EUA. O reverendo inclusive teria uma ligação afetiva com baby-Bush devido à semelhança do seu problema com o do seu filho, Franklin Grahan, que aos 22 anos voltou a se dedicar à religião após longa fase de vícios e internações. Segundo relato do próprio Grahan foi numa conversa com o atual presidente, durante uma caminhada na praia de Kennebunkport, em 1986, que baby-Bush se reconverteu à religião.
“Livrar-se do último demônio”
“Quando a gente está sem Deus nesta vida, amarga terrível solidão... Há uma coisa que gostaria que você fizesse ao voltar ao Texas. Deus ama você, George. Deus está interessado em você. Para voltar a dedicar a vida a Jesus Cristo e se tornar um homem novo, você terá de se livrar daquele último demônio. George, dê isso a ele. Deus vai assumir a carga e você será libertado”, orientou o pastor. Segundo relato do próprio Bush, ele só teria se libertado dos seus “demônios” durante uma festa com os amigos texanos de Midland para comemorar o seu 40º aniversário. Após aquela longa folia, ele jurou que nunca mais iria beber.
Bush garante a sua vida mudou radicalmente depois que ele ouviu os “conselhos espirituais” do reverendo Grahan. Antes de “excomungar seus demônios”, afastando-se do alcoolismo e de outros vícios, ele havia fracassado na vida política (foi derrotado numa eleição para deputado em 1978) e no mundo dos negócios (suas três empresas do ramo de petróleo faliram entre 1976 e 1983). Após a “reconversão”, ele se tornou governador do Texas, em 1993 (reeleito em 1977), e presidente dos EUA, em 2000. Daí ele afirmar, com uma convicção hipócrita e oportunista, que é um predestinado, um “enviado de Deus na terra”.
O falso moralismo dos theocons
Na eleição de 2000, George Bush teve apoio ativo dos pastores ultraconservadores, como Pat Robertson, Jerry Falwell e do midiático Billy Grahan. Os seus cabos eleitorais foram os fanáticos das organizações religiosas de extrema direita dos EUA, como a Maioria Moral e a Coalizão Cristã, secretariada por Ralph Reed. Este só não pode participar mais ativamente da campanha eleitoral porque foi revelada sua atuação ilegal e criminosa de lobista da Microsoft e da corrupta Enron. Para colegas evangélicos, o “pastor” Reed jurava que “Deus escolheu Bush porque sabia de suas qualidades de líder vigoroso e resoluto”.
A agressividade dos tele-evangelistas contra as “civilizações hostis”, as liberdades democráticas, o aborto e o homossexualismo acabou rendendo votos entre o eleitorado mais conservador e chauvinista dos EUA. Além disso, ela foi apimentada pelo falso moralismo destas seitas. Isto apesar de denúncias contra muitos “pastores”. Um deles, Jim Baker, dono de império de hotéis, escandalizou o país ao admitir que mantinha relações extra-conjugais e ao ser preso por desvio de dólares dos fiéis. Já Jimmy Swaggart, cuja pregação alcançava mais de 100 países, incluindo o Brasil, caiu em desgraça ao se descoberto em prostíbulos. Ele chorou, pediu desculpas e, pouco depois, voltou à ativa, tornando-se ativo apoiador de George W. Bush.
Já Pat Robertson, criador da Coalizão Cristã, detém postos de comando no Partido Republicano e possui milionários negócios, como a exploração de minas de ouro na Libéria e uma influente rede de televisão – Cristian Broadcasting Network (CBN). Seu programa diário na TV é famoso pelas agressivas campanhas contra o aborto e o casamento gay, pela obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas e pela defesa dos “valores da família”. No ano passado, causou celeuma no país ao pregar o assassinato do presidente Fidel Castro. A Coalizão diz possuir um milhão de adeptos e se vangloria de ter já elegido vários deputados, senadores e governadores. Ela tem um luxuosa sede em Washington que serve para sua lobista.
“A cruzada sanguinária” de Bush
Na verdade, toda esta encenação religiosa serve aos propósitos dos republicanos ultraconservadores. De há muito que o Partido Republicano sofre enorme influência da direita religiosa dos EUA, dos chamados theocons. Nela militam não apenas reverendos fascistas, como Pat Robertson e Jerry Falwell, mas vários advogados com notável dedicação às campanhas moralistas. O grupo teve muito poder nos dois mandatos de Ronald Reagan, sendo baluarte da luta contra o comunismo, e também no governo de Bush-pai. Mas depois caiu no descrédito, sendo responsabilizado pelas duas derrotas consecutivas dos republicanos. Na gestão de Bill Clinton, os theocons lideraram a campanha moralista pelo impeachment do presidente.
Com a vitória de baby-Bush e, principalmente, após os atentados de 11 de setembro de 2001, este grupo retornou com toda força ao poder e hoje ocupa postos-chaves em várias áreas do governo, especialmente no Departamento de Justiça. O atual presidente usou, de forma oportunista, de toda a carga religiosa e das contribuições dos theocons para decretar sua “guerra santa ao terrorismo” e para proclamar o “choque de civilizações” como forma de justificar as criminosas ocupações do Afeganistão e, depois, do Iraque. Ele se postou como “mensageiro de Deus” nesta “cruzada” sanguinária. A direita religiosa também conseguiu emplacar a sua política contra as liberdades civis, o direito ao aborto e o homossexualismo nos EUA.
Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “Venezuela: originalidade e ousadia” (Editora Anita Garibaldi, 3ª edição).
“Bush acha que Deus fala com ele... Ele se julga em missão divina... Reiterou que sua missão é ditada do alto, a pretexto de que ‘a liberdade é uma dádiva do todo-poderoso’... Essencialmente, o que ele disse foi ter sido ‘convocado’ para esse papel... George W. Bush foi colocado na Casa Branca por Deus”.
Bob Woodward, no livro Plan of attack, com base em declarações do próprio presidente-maníaco.
Na sua “guerra infinita” contra o “eixo do mal”, o presidente George W. Bush tenta estigmatizar todas as demais culturas e religiões do mundo. Apresenta-as como se fossem coisas “demoníacas” de “fanáticos”. Um dos mentores desta onda conservadora, Samuel Huntington, inclusive escreveu um livro defendendo que o maior problema do planeta na atualidade é o “choque de civilizações”. Esta teoria insana substituiu o célebre e desastroso conceito sobre o “fim da história”, do descartado Francis Fukuyama. É nela que o fundamentalista George W. Bush se baseia para justificar as suas agressões terroristas no planeta.
Escrito em 1993, o livro de cabeceira dos republicanos afirma que o mundo vive uma fase de transição e que a maior ameaça ao “ocidente” viria da chamada “conexão islâmica-confuciana”, incluindo os países árabes e a perigosa China. Diante deste cenário apocalíptico, Huntington sugere que o “mundo ocidental” deve usar meios militares para desestabilizar as “civilizações hostis” e preservar a sua hegemonia. “Um mundo sem o primado americano terá mais violência e desordem, menos democracia e crescimento, do que um mundo no qual os EUA continuem a ter mais influência do que qualquer outro país na formação dos negócios globais”. Os atentados de 11 de setembro seriam a prova cabal do acerto desta “teoria”.
“Enviado de Deus na Terra”
Por detrás desta “teoria insana” se escondem muitos tiranos maníacos. A mídia hegemônica, que costuma fazer grosseiras caricaturas do islamismo e de outros credos, não enfatiza que o próprio George W. Bush é um ativo partidário da intolerância e do fanatismo religioso. Ele jura que é um “enviado de Deus na terra” – ou, como escreveu um colunista do Washington Post, “é o próprio aiatolá da América”. Na sessão conjunta do Congresso de setembro de 2001, quando decretou sua “guerra infinita”, o atual presidente dos EUA esbravejou: “Ou você está conosco, ou está com os terroristas. De hoje em diante, qualquer nação que continuar a acolher ou apoiar o terrorismo será encarada pelos EUA como regime hostil”.
Foi nesta ocasião que Bush pregou a “cruzada contra o terrorismo”, numa versão cristã da Jihad, a guerra santa dos mulçumanos. Poucos dias depois, o pastor Jerry Falwell, um de seus “conselheiros espirituais”, aproveitou o clima de histeria decorrente dos atentados de 11 de setembro para afirmar que “Maomé é terrorista”. Já o reverendo Pat Robertson disse que aquele ataque fora “um castigo de Deus por causa da legalização aborto e da ação das feministas e gays”. E a jornalista Ann Coulter, entusiasta da “guerra santa”, escreveu: “Devíamos invadir o país deles, matar os líderes deles e convertê-los ao cristianismo”.
O “renascimento em Cristo”
De há muito que a família Bush explora a religiosidade dos estadunidenses para escamotear seus negócios ilícitos e justificar sua política ultraconservadora. Segundo vários dos seus biógrafos, após uma longa fase de “beberrão a arruaceiro”, o atual presidente difundiu amplamente a imagem do “renascido em Cristo” – horn again Christian –, o que rende muitos votos no segmento mais atrasado do eleitorado. Ele inclusive passou a fazer pregações em igrejas e nos shows evangélicos de televisão, nos quais satanizava as demais religiões e dizia que relia a Bíblia a cada dois anos. O reverendo Tony Evans, seu confidente em Dallas quando ele era governador do Texas, relata que Bush “sentia que Deus falava com ele”. Ele mesmo dizia que rezava várias vezes ao dia “para ser, tanto quanto possível, um bom mensageiro da vontade de Deus”.
Bush gostava de relatar que o seu “renascimento em Cristo” se dera com a ajuda do pastor midiático Billy Grahan, cultuado como o “estadista evangélico da América”. Grahan é um antigo conselheiro espiritual da família Bush, tendo passado várias férias na residência de praia em Kenneebunkport, no extremo oeste dos EUA. O reverendo inclusive teria uma ligação afetiva com baby-Bush devido à semelhança do seu problema com o do seu filho, Franklin Grahan, que aos 22 anos voltou a se dedicar à religião após longa fase de vícios e internações. Segundo relato do próprio Grahan foi numa conversa com o atual presidente, durante uma caminhada na praia de Kennebunkport, em 1986, que baby-Bush se reconverteu à religião.
“Livrar-se do último demônio”
“Quando a gente está sem Deus nesta vida, amarga terrível solidão... Há uma coisa que gostaria que você fizesse ao voltar ao Texas. Deus ama você, George. Deus está interessado em você. Para voltar a dedicar a vida a Jesus Cristo e se tornar um homem novo, você terá de se livrar daquele último demônio. George, dê isso a ele. Deus vai assumir a carga e você será libertado”, orientou o pastor. Segundo relato do próprio Bush, ele só teria se libertado dos seus “demônios” durante uma festa com os amigos texanos de Midland para comemorar o seu 40º aniversário. Após aquela longa folia, ele jurou que nunca mais iria beber.
Bush garante a sua vida mudou radicalmente depois que ele ouviu os “conselhos espirituais” do reverendo Grahan. Antes de “excomungar seus demônios”, afastando-se do alcoolismo e de outros vícios, ele havia fracassado na vida política (foi derrotado numa eleição para deputado em 1978) e no mundo dos negócios (suas três empresas do ramo de petróleo faliram entre 1976 e 1983). Após a “reconversão”, ele se tornou governador do Texas, em 1993 (reeleito em 1977), e presidente dos EUA, em 2000. Daí ele afirmar, com uma convicção hipócrita e oportunista, que é um predestinado, um “enviado de Deus na terra”.
O falso moralismo dos theocons
Na eleição de 2000, George Bush teve apoio ativo dos pastores ultraconservadores, como Pat Robertson, Jerry Falwell e do midiático Billy Grahan. Os seus cabos eleitorais foram os fanáticos das organizações religiosas de extrema direita dos EUA, como a Maioria Moral e a Coalizão Cristã, secretariada por Ralph Reed. Este só não pode participar mais ativamente da campanha eleitoral porque foi revelada sua atuação ilegal e criminosa de lobista da Microsoft e da corrupta Enron. Para colegas evangélicos, o “pastor” Reed jurava que “Deus escolheu Bush porque sabia de suas qualidades de líder vigoroso e resoluto”.
A agressividade dos tele-evangelistas contra as “civilizações hostis”, as liberdades democráticas, o aborto e o homossexualismo acabou rendendo votos entre o eleitorado mais conservador e chauvinista dos EUA. Além disso, ela foi apimentada pelo falso moralismo destas seitas. Isto apesar de denúncias contra muitos “pastores”. Um deles, Jim Baker, dono de império de hotéis, escandalizou o país ao admitir que mantinha relações extra-conjugais e ao ser preso por desvio de dólares dos fiéis. Já Jimmy Swaggart, cuja pregação alcançava mais de 100 países, incluindo o Brasil, caiu em desgraça ao se descoberto em prostíbulos. Ele chorou, pediu desculpas e, pouco depois, voltou à ativa, tornando-se ativo apoiador de George W. Bush.
Já Pat Robertson, criador da Coalizão Cristã, detém postos de comando no Partido Republicano e possui milionários negócios, como a exploração de minas de ouro na Libéria e uma influente rede de televisão – Cristian Broadcasting Network (CBN). Seu programa diário na TV é famoso pelas agressivas campanhas contra o aborto e o casamento gay, pela obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas e pela defesa dos “valores da família”. No ano passado, causou celeuma no país ao pregar o assassinato do presidente Fidel Castro. A Coalizão diz possuir um milhão de adeptos e se vangloria de ter já elegido vários deputados, senadores e governadores. Ela tem um luxuosa sede em Washington que serve para sua lobista.
“A cruzada sanguinária” de Bush
Na verdade, toda esta encenação religiosa serve aos propósitos dos republicanos ultraconservadores. De há muito que o Partido Republicano sofre enorme influência da direita religiosa dos EUA, dos chamados theocons. Nela militam não apenas reverendos fascistas, como Pat Robertson e Jerry Falwell, mas vários advogados com notável dedicação às campanhas moralistas. O grupo teve muito poder nos dois mandatos de Ronald Reagan, sendo baluarte da luta contra o comunismo, e também no governo de Bush-pai. Mas depois caiu no descrédito, sendo responsabilizado pelas duas derrotas consecutivas dos republicanos. Na gestão de Bill Clinton, os theocons lideraram a campanha moralista pelo impeachment do presidente.
Com a vitória de baby-Bush e, principalmente, após os atentados de 11 de setembro de 2001, este grupo retornou com toda força ao poder e hoje ocupa postos-chaves em várias áreas do governo, especialmente no Departamento de Justiça. O atual presidente usou, de forma oportunista, de toda a carga religiosa e das contribuições dos theocons para decretar sua “guerra santa ao terrorismo” e para proclamar o “choque de civilizações” como forma de justificar as criminosas ocupações do Afeganistão e, depois, do Iraque. Ele se postou como “mensageiro de Deus” nesta “cruzada” sanguinária. A direita religiosa também conseguiu emplacar a sua política contra as liberdades civis, o direito ao aborto e o homossexualismo nos EUA.
Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “Venezuela: originalidade e ousadia” (Editora Anita Garibaldi, 3ª edição).
OS NEGÓCIOS ILÍCITOS DA DINASTIA BUSH
ALTAMIRO BORGES - Os negócios ilícitos da dinastia Bush
Até o mais debilóide cidadão estadunidense – e há muitos, segundo o cineasta Michel Moore no corrosivo livro “Uma nação de idiotas” – sabe que por detrás da retórica anti-terrorista do presidente George Bush se escondem poderosos interesses econômicos – em especial das indústrias de petróleo e de armas e dos conglomerados financeiros. Não fossem os altos lucros auferidos por estes setores com a ocupação do Iraque, bastaria um rápido histórico sobre a trajetória da dinastia Bush para se ter certeza da falsidade do discurso do atual presidente. A família sempre esteve envolvida em negócios bilionários e ilícitos!
Antes de virar o 43º presidente dos EUA, em janeiro de 2001, George W. Bush foi acionista e participou da direção de várias companhias do ramo do petróleo – Arbusto, Spectrum e Harken. Já seu pai, George H.W. Bush, que presidiu o país entre 1989 e 1992, foi fundador e executivo da Zapata Oil e da Pennzoil, uma das maiores empresas petrolíferas do planeta. O seu avo, Prescott Sheldon Bush (1885-1953), foi dirigente da United Banking Corporation, banco acusado de transações ilegais com os nazistas. E o seu bisavô, Samuel Prescott Bush (1863-1948), fez fortuna com a Buckeye Steel durante a I Guerra Mundial.
Família de mercadores de armas
Os negócios lucrativos e as relações promíscuas com o poder datam do período da I Guerra Mundial. No governo de Woodrow Wilson, o bisavô do atual presidente, Samuel Prescott Bush, dono da indústria de peças Buckeye Steel, tornou-se diretor do Escritório das Indústrias de Guerra e conselheiro do governo. Em curto espaço de tempo, ele dobrou a fortuna da empresa, que passou a fabricar munição, canos de canhões e outras armas. O estranho enriquecimento acabou sendo alvo de investigação de uma comissão parlamentar, presidida pelo senador Gerald Nye, sobre os “mercadores de armas”. Mas, curiosamente, os registros de suas falcatruas foram destruídos nos anos 90 para “economizar espaço” no Arquivo Nacional.
Já seu outro bisavô, George Herbert Walker, esteve envolvido com estranhos “contratos de guerra”, sendo presenteado pelo governo com milionários projetos de produção de manganês e de renovação dos campos petrolíferos na Alemanha devastada pela guerra. Os negócios melhoraram com a união dos Bush com os Walker, graças ao “casamento” da filha de George com o filho de Samuel. A rica união permitiu que a dinastia estreitasse as relações com os bancos e as casas de investimento de Wall Street e projetou o filho de Samuel, Prescott Sheldon, pai do primeiro presidente Bush e avô do segundo, no mundo da política.
As negociatas com os nazistas
Prescott foi eleito duas vezes ao senado em Connecticut e consolidou os vínculos dos negócios com o Estado. Sua trajetória, porém, foi marcada por vários escândalos. O maior deles se deu durante a II Guerra Mundial. Como diretor do United Banking Corporation (UBC), ele foi acusado de intermediar transações comerciais, como a venda de armas, para a Alemanha. Ele inclusive comprou do industrial nazista Fritz Thyssen, chamado de “anjo de Hitler”, a indústria Silesian Steel, que explorava os prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz. Ao ser revelado o caso, o presidente Franklin Roosevelt enquadrou a UBC na Lei de Transações com o Inimigo e decretou intervenção branca na instituição bancária.
Em decorrência do escândalo, Prescott Bush foi obrigado a se afastar da direção do UBC e aderiu, numa hábil manobra para limpar a sua imagem, à campanha nacional de arrecadação de dinheiro para o Fundo Nacional de Guerra (NWF). Concluída a guerra, cumpriu um mandato apagado no Senado e se aposentou. Mas a família já havia tomado gosto pela junção entre os negócios, em especial no ramo de petróleo, e a política. O filho de Prescott, George Herbert Walker Bush, pai do atual presidente, logo ocupou o lugar de pai nesta empreitada, mudando-se de Connecticut para o Texas, a terra do petróleo.
Presidente da indústria de petróleo
Em 1950, com a ajuda do pai senador e de suas conexões com os investidores de Wall Street, ele fundou a primeira empresa de petróleo da família, a Bush-Overbey Oil. Quatro anos depois, criou a Zapata Oil, que se beneficiou de um projeto do pai que permitia a perfuração e extração de petróleo em mar, mesmo sem a sua empresa ter qualquer experiência nesta área. Em 1963, fruto da fusão com a Penn Oil, nasceu a Pennzoil, um das maiores empresas de petróleo do mundo. Consolidada a fortuna, George H.W. Bush partiu para a política, elegendo-se duas vezes deputado, mas fracassando no seu projeto para o Senado.
Vinculado aos interesses dos poderosos grupos petrolíferos, tornou-se presidente do Partido Republicano, diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), quando realizou negociações secretas de armas com o Irã e o Iraque, e vice-presidente na chapa de Ronald Reagan. Às vésperas de sua posse como presidente da Republica, em 1989, ele próprio admitiu que chegara ao mais elevado posto do país graças ao poderio das empresas petrolíferas. “Vou colocar desta forma: eles conseguiram eleger um presidente dos EUA que veio da indústria do petróleo e gás”. Desgastado com as inúmeras denúncias de tráfico de influência e da ligação com setores ultradireitistas e racistas, George H. W. Bush não conseguiu se reeleger em 1992.
Banco dos criminosos e vigaristas
Mas ele não desistiu e conseguiu realizar, oito anos depois, uma façanha na política dos EUA ao eleger o seu filho para presidente – houve apenas outro caso na história do país, na eleição de John Quincy Adams. Mas a imagem do filho era bem diferente da cultivada pelo pai, um ex-piloto condecorado pelos serviços prestados na guerra e um homem de negócios bem sucedido. Já seu filho, George W. Bush, ficou famoso por fugir do exército durante a guerra do Vietnã, valendo-se da influência do pai, e ainda por suas prisões por dirigir embriagado e até por porte de cocaína na sua fase de universitário. Já no mundo dos negócios, o incompetente atual presidente manteve a tradição da dinastia do envolvimento em casos suspeitos.
Antes de levar à falência três empresas de petróleo – Arbusto, Spectrum e Harken – e virar administrador do time de beisebol Rangers, ele esteve metido em várias falcatruas. A Harken foi processada por fraude contábil, sonegação fiscal e vínculo com o Bank of Commerce & Credit International. O BCCI, apelidado de banco dos criminosos e vigaristas (criminal and crooks) da sigla, promoveu um dos maiores escândalos financeiros da história dos EUA. Ele atolou bilhões de dólares em lavagem de dinheiro do narcotráfico, contrabando de material nuclear e tráfico de armas. Entrou em colapso em 1991, quando sumiram US$ 5 bilhões utilizados no suborno de governantes de 78 países e de 28 senadores e 108 deputados dos EUA.
A família Bush sempre manteve relações estreitas com a direção do BCCI. Richard Helmns, ex-diretor da CIA e embaixador no Irã no tempo do ditador Reza Pahlevi, foi quem apresentou o principal operador do banco nos EUA, Mohammed Rahim Irvani, ao presidente Bush-pai. Antes disso, seu filho já havia virado amigo, durante seu “serviço militar” na Guarda Nacional do Texas, de outro pistolão do BCCI, James Bath. Em 1977, através deste contato, o banco financiou a primeira empresa de petróleo de baby-Bush, então com 31 anos, a Arbusto. Bath, que era representante no Texas da Bin Laden Brothers Construction, também foi o responsável pelo primeiro contato do atual presidente com a família de Osama bin Laden.
Apoio dos executivos-ladrões
Outro antigo contato da dinastia Bush que beneficiou o atual presidente foi com o Grupo Carlyle, um dos principais fornecedores do Pentágono. Antes de ser governador do Texas, Bush-II integrou o conselho de direção de uma das subsidiárias deste grupo, a CaterAir. As indústrias deste grupo fabricam, entre outras coisas, o tanque Bradley e as peças do helicóptero Apache. A guerra declarada por George Bush “contra o terrorismo” utiliza as armas fabricadas pelas empresas do Grupo Carlyle. Outra ironia da história é que a família Bin Laden também é uma poderosa acionista desta corporação transnacional.
Estas intrincadas relações com o “complexo industrial-militar” é que levaram George W. Bush ao poder. Em maio de 2004, quando vários escândalos colocaram no banco de réus os executivos-chefes de várias empresas, a revista Time revelou que sua reeleição teve o apoio financeiro de 261 destes criminosos; 31 contribuíram para seu adversário democrata, John Kerry. Entre as corporações que entraram em colapso por fraudes contábeis estava a Enron, a sétima maior multinacional do mundo na lista da revista Fortune, e a Arthur Andersen. Ambas foram as principais financiadoras de Bush. Ken Lay, o corrupto presidente da Enron, acompanhou-o desde o início da carreira política, ajudando-a a se eleger governador do Texas.
A maior parte da equipe do atual presidente também presta serviços ao “complexo militar-industrial”. O vice-presidente Dick Cheney presidiu a Halliburton Industries, a empresa de petróleo maior beneficiária da ocupação do Iraque; sua esposa, Lynne Cheney, participa do conselho de direção do maior fabricante de armas dos EUA, a gigante Lockheed; o procurador-geral John Ashcroft foi advogado da Monsanto e da AT&T; o ex-secretário de defesa Donald Rumsfeld pertenceu à direção da General Instrument, Sears e Kellogg’s; já o secretário de saúde Tommy Thompson foi, ironicamente, acionista da empresa de fumo Philip Morris; e a atual secretária de Estado, Condoleezza Rice, foi do conselho da Chevron – um dos maiores petroleiros desta empresa foi batizado com o seu nome pelos relevantes serviços prestados.
Máfia dos gusanos cubanos
Como se nota, a dinastia Bush mantém ótimas amizades. Os três irmãos do atual presidente também estão envolvidos em negócios ilícitos. Jeb Bush, governador do Flórida, mantém estreitas relações com a máfia dos exilados cubanos, os gusanos (vermes). Tão logo chegou a Miami, nos anos 80, ele virou sócio do “empresário” Armando Codina – processado por vários casos de corrupção. Depois, passou a freqüentar os luxuosos jantares e a voar no jatinho particular de Alberto Duque – que também foi condenado a 15 anos de prisão por fraudes, mas conseguiu “fugir” da cadeia. O outro vigarista com quem manteve relação foi Hiram Martinez, que também teve prisão domiciliar decretada por especular no ramo imobiliário.
Já Camilo Padreda, ex-oficial da contra-espionagem do ditador Fulgêncio Batista, outro amigo intimo de Jeb, foi indiciado por contrabando de drogas, lavagem de dinheiro e tráfico de armas. Miguel Recarrey, indicado por Jeb para integrar o gabinete do governador do Estado, ficou famoso por desviar verbas do programa Medicare – de assistência médica aos idosos. A sede da sua empresa, a International Medical Center, foi o quartel-general dos contra-revolucionários nicaragüenses. Na sua mansão em Miami, este “exilado” mantinha um arsenal de rifles e metralhadoras. Já seu irmão, Jorge Recarrey, que se gabava de ter prestado “serviços” à CIA, indicou seu amigo Jeb Bush como “consultor para acordos imobiliários”.
Já os outros dois irmãos, Marvin e Neil, preferiram não ingressar na política. Mesmo assim, estiveram metidos em vários escândalos. Neil Bush foi diretor da Silverado Banking, empresa acusada de falência fraudulenta e desvio de US$ 1,3 bilhão dos cofres públicos. Ele gostava de viajar a Argentina para jogar tênis com seu amigo Carlos Menem, que na época já era acusado de vários casos de corrupção. Já Marvin Bush, irmão mais novo do atual presidente, integrou o conselho de direção da Fresh Del Monte, empresa acusada de subornar políticos do México e manter dinheiro sujo no paraíso fiscal das ilhas Cayman.
Estas e outras denúncias chegaram a causar desconforto na Casa Branca quando o pai era presidente. Este ainda tentou justificar os “negócios e as amizades” dos seus filhos. “Os meninos têm o direito de ganhar a vida”. Já um agente do serviço secreto encarregado da segurança da família presidencial foi mais direto: “Olhe, a gente avisa os garotos. Mas é só o que podemos fazer. Não temos como impedi-los de se ligarem a estas pessoas. Além de avisar, a única coisa que podemos fazer é submeter essa gente ao detector de metais quando aparece por aqui [na Casa Branca]”. Mas, infelizmente, o detector de metais não impediu que um de seus filhos, George W. Bush, chegasse a presidência dos EUA.
Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “Venezuela: originalidade e ousadia” (Editora Anita Garibaldi, 3ª edição).
Até o mais debilóide cidadão estadunidense – e há muitos, segundo o cineasta Michel Moore no corrosivo livro “Uma nação de idiotas” – sabe que por detrás da retórica anti-terrorista do presidente George Bush se escondem poderosos interesses econômicos – em especial das indústrias de petróleo e de armas e dos conglomerados financeiros. Não fossem os altos lucros auferidos por estes setores com a ocupação do Iraque, bastaria um rápido histórico sobre a trajetória da dinastia Bush para se ter certeza da falsidade do discurso do atual presidente. A família sempre esteve envolvida em negócios bilionários e ilícitos!
Antes de virar o 43º presidente dos EUA, em janeiro de 2001, George W. Bush foi acionista e participou da direção de várias companhias do ramo do petróleo – Arbusto, Spectrum e Harken. Já seu pai, George H.W. Bush, que presidiu o país entre 1989 e 1992, foi fundador e executivo da Zapata Oil e da Pennzoil, uma das maiores empresas petrolíferas do planeta. O seu avo, Prescott Sheldon Bush (1885-1953), foi dirigente da United Banking Corporation, banco acusado de transações ilegais com os nazistas. E o seu bisavô, Samuel Prescott Bush (1863-1948), fez fortuna com a Buckeye Steel durante a I Guerra Mundial.
Família de mercadores de armas
Os negócios lucrativos e as relações promíscuas com o poder datam do período da I Guerra Mundial. No governo de Woodrow Wilson, o bisavô do atual presidente, Samuel Prescott Bush, dono da indústria de peças Buckeye Steel, tornou-se diretor do Escritório das Indústrias de Guerra e conselheiro do governo. Em curto espaço de tempo, ele dobrou a fortuna da empresa, que passou a fabricar munição, canos de canhões e outras armas. O estranho enriquecimento acabou sendo alvo de investigação de uma comissão parlamentar, presidida pelo senador Gerald Nye, sobre os “mercadores de armas”. Mas, curiosamente, os registros de suas falcatruas foram destruídos nos anos 90 para “economizar espaço” no Arquivo Nacional.
Já seu outro bisavô, George Herbert Walker, esteve envolvido com estranhos “contratos de guerra”, sendo presenteado pelo governo com milionários projetos de produção de manganês e de renovação dos campos petrolíferos na Alemanha devastada pela guerra. Os negócios melhoraram com a união dos Bush com os Walker, graças ao “casamento” da filha de George com o filho de Samuel. A rica união permitiu que a dinastia estreitasse as relações com os bancos e as casas de investimento de Wall Street e projetou o filho de Samuel, Prescott Sheldon, pai do primeiro presidente Bush e avô do segundo, no mundo da política.
As negociatas com os nazistas
Prescott foi eleito duas vezes ao senado em Connecticut e consolidou os vínculos dos negócios com o Estado. Sua trajetória, porém, foi marcada por vários escândalos. O maior deles se deu durante a II Guerra Mundial. Como diretor do United Banking Corporation (UBC), ele foi acusado de intermediar transações comerciais, como a venda de armas, para a Alemanha. Ele inclusive comprou do industrial nazista Fritz Thyssen, chamado de “anjo de Hitler”, a indústria Silesian Steel, que explorava os prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz. Ao ser revelado o caso, o presidente Franklin Roosevelt enquadrou a UBC na Lei de Transações com o Inimigo e decretou intervenção branca na instituição bancária.
Em decorrência do escândalo, Prescott Bush foi obrigado a se afastar da direção do UBC e aderiu, numa hábil manobra para limpar a sua imagem, à campanha nacional de arrecadação de dinheiro para o Fundo Nacional de Guerra (NWF). Concluída a guerra, cumpriu um mandato apagado no Senado e se aposentou. Mas a família já havia tomado gosto pela junção entre os negócios, em especial no ramo de petróleo, e a política. O filho de Prescott, George Herbert Walker Bush, pai do atual presidente, logo ocupou o lugar de pai nesta empreitada, mudando-se de Connecticut para o Texas, a terra do petróleo.
Presidente da indústria de petróleo
Em 1950, com a ajuda do pai senador e de suas conexões com os investidores de Wall Street, ele fundou a primeira empresa de petróleo da família, a Bush-Overbey Oil. Quatro anos depois, criou a Zapata Oil, que se beneficiou de um projeto do pai que permitia a perfuração e extração de petróleo em mar, mesmo sem a sua empresa ter qualquer experiência nesta área. Em 1963, fruto da fusão com a Penn Oil, nasceu a Pennzoil, um das maiores empresas de petróleo do mundo. Consolidada a fortuna, George H.W. Bush partiu para a política, elegendo-se duas vezes deputado, mas fracassando no seu projeto para o Senado.
Vinculado aos interesses dos poderosos grupos petrolíferos, tornou-se presidente do Partido Republicano, diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), quando realizou negociações secretas de armas com o Irã e o Iraque, e vice-presidente na chapa de Ronald Reagan. Às vésperas de sua posse como presidente da Republica, em 1989, ele próprio admitiu que chegara ao mais elevado posto do país graças ao poderio das empresas petrolíferas. “Vou colocar desta forma: eles conseguiram eleger um presidente dos EUA que veio da indústria do petróleo e gás”. Desgastado com as inúmeras denúncias de tráfico de influência e da ligação com setores ultradireitistas e racistas, George H. W. Bush não conseguiu se reeleger em 1992.
Banco dos criminosos e vigaristas
Mas ele não desistiu e conseguiu realizar, oito anos depois, uma façanha na política dos EUA ao eleger o seu filho para presidente – houve apenas outro caso na história do país, na eleição de John Quincy Adams. Mas a imagem do filho era bem diferente da cultivada pelo pai, um ex-piloto condecorado pelos serviços prestados na guerra e um homem de negócios bem sucedido. Já seu filho, George W. Bush, ficou famoso por fugir do exército durante a guerra do Vietnã, valendo-se da influência do pai, e ainda por suas prisões por dirigir embriagado e até por porte de cocaína na sua fase de universitário. Já no mundo dos negócios, o incompetente atual presidente manteve a tradição da dinastia do envolvimento em casos suspeitos.
Antes de levar à falência três empresas de petróleo – Arbusto, Spectrum e Harken – e virar administrador do time de beisebol Rangers, ele esteve metido em várias falcatruas. A Harken foi processada por fraude contábil, sonegação fiscal e vínculo com o Bank of Commerce & Credit International. O BCCI, apelidado de banco dos criminosos e vigaristas (criminal and crooks) da sigla, promoveu um dos maiores escândalos financeiros da história dos EUA. Ele atolou bilhões de dólares em lavagem de dinheiro do narcotráfico, contrabando de material nuclear e tráfico de armas. Entrou em colapso em 1991, quando sumiram US$ 5 bilhões utilizados no suborno de governantes de 78 países e de 28 senadores e 108 deputados dos EUA.
A família Bush sempre manteve relações estreitas com a direção do BCCI. Richard Helmns, ex-diretor da CIA e embaixador no Irã no tempo do ditador Reza Pahlevi, foi quem apresentou o principal operador do banco nos EUA, Mohammed Rahim Irvani, ao presidente Bush-pai. Antes disso, seu filho já havia virado amigo, durante seu “serviço militar” na Guarda Nacional do Texas, de outro pistolão do BCCI, James Bath. Em 1977, através deste contato, o banco financiou a primeira empresa de petróleo de baby-Bush, então com 31 anos, a Arbusto. Bath, que era representante no Texas da Bin Laden Brothers Construction, também foi o responsável pelo primeiro contato do atual presidente com a família de Osama bin Laden.
Apoio dos executivos-ladrões
Outro antigo contato da dinastia Bush que beneficiou o atual presidente foi com o Grupo Carlyle, um dos principais fornecedores do Pentágono. Antes de ser governador do Texas, Bush-II integrou o conselho de direção de uma das subsidiárias deste grupo, a CaterAir. As indústrias deste grupo fabricam, entre outras coisas, o tanque Bradley e as peças do helicóptero Apache. A guerra declarada por George Bush “contra o terrorismo” utiliza as armas fabricadas pelas empresas do Grupo Carlyle. Outra ironia da história é que a família Bin Laden também é uma poderosa acionista desta corporação transnacional.
Estas intrincadas relações com o “complexo industrial-militar” é que levaram George W. Bush ao poder. Em maio de 2004, quando vários escândalos colocaram no banco de réus os executivos-chefes de várias empresas, a revista Time revelou que sua reeleição teve o apoio financeiro de 261 destes criminosos; 31 contribuíram para seu adversário democrata, John Kerry. Entre as corporações que entraram em colapso por fraudes contábeis estava a Enron, a sétima maior multinacional do mundo na lista da revista Fortune, e a Arthur Andersen. Ambas foram as principais financiadoras de Bush. Ken Lay, o corrupto presidente da Enron, acompanhou-o desde o início da carreira política, ajudando-a a se eleger governador do Texas.
A maior parte da equipe do atual presidente também presta serviços ao “complexo militar-industrial”. O vice-presidente Dick Cheney presidiu a Halliburton Industries, a empresa de petróleo maior beneficiária da ocupação do Iraque; sua esposa, Lynne Cheney, participa do conselho de direção do maior fabricante de armas dos EUA, a gigante Lockheed; o procurador-geral John Ashcroft foi advogado da Monsanto e da AT&T; o ex-secretário de defesa Donald Rumsfeld pertenceu à direção da General Instrument, Sears e Kellogg’s; já o secretário de saúde Tommy Thompson foi, ironicamente, acionista da empresa de fumo Philip Morris; e a atual secretária de Estado, Condoleezza Rice, foi do conselho da Chevron – um dos maiores petroleiros desta empresa foi batizado com o seu nome pelos relevantes serviços prestados.
Máfia dos gusanos cubanos
Como se nota, a dinastia Bush mantém ótimas amizades. Os três irmãos do atual presidente também estão envolvidos em negócios ilícitos. Jeb Bush, governador do Flórida, mantém estreitas relações com a máfia dos exilados cubanos, os gusanos (vermes). Tão logo chegou a Miami, nos anos 80, ele virou sócio do “empresário” Armando Codina – processado por vários casos de corrupção. Depois, passou a freqüentar os luxuosos jantares e a voar no jatinho particular de Alberto Duque – que também foi condenado a 15 anos de prisão por fraudes, mas conseguiu “fugir” da cadeia. O outro vigarista com quem manteve relação foi Hiram Martinez, que também teve prisão domiciliar decretada por especular no ramo imobiliário.
Já Camilo Padreda, ex-oficial da contra-espionagem do ditador Fulgêncio Batista, outro amigo intimo de Jeb, foi indiciado por contrabando de drogas, lavagem de dinheiro e tráfico de armas. Miguel Recarrey, indicado por Jeb para integrar o gabinete do governador do Estado, ficou famoso por desviar verbas do programa Medicare – de assistência médica aos idosos. A sede da sua empresa, a International Medical Center, foi o quartel-general dos contra-revolucionários nicaragüenses. Na sua mansão em Miami, este “exilado” mantinha um arsenal de rifles e metralhadoras. Já seu irmão, Jorge Recarrey, que se gabava de ter prestado “serviços” à CIA, indicou seu amigo Jeb Bush como “consultor para acordos imobiliários”.
Já os outros dois irmãos, Marvin e Neil, preferiram não ingressar na política. Mesmo assim, estiveram metidos em vários escândalos. Neil Bush foi diretor da Silverado Banking, empresa acusada de falência fraudulenta e desvio de US$ 1,3 bilhão dos cofres públicos. Ele gostava de viajar a Argentina para jogar tênis com seu amigo Carlos Menem, que na época já era acusado de vários casos de corrupção. Já Marvin Bush, irmão mais novo do atual presidente, integrou o conselho de direção da Fresh Del Monte, empresa acusada de subornar políticos do México e manter dinheiro sujo no paraíso fiscal das ilhas Cayman.
Estas e outras denúncias chegaram a causar desconforto na Casa Branca quando o pai era presidente. Este ainda tentou justificar os “negócios e as amizades” dos seus filhos. “Os meninos têm o direito de ganhar a vida”. Já um agente do serviço secreto encarregado da segurança da família presidencial foi mais direto: “Olhe, a gente avisa os garotos. Mas é só o que podemos fazer. Não temos como impedi-los de se ligarem a estas pessoas. Além de avisar, a única coisa que podemos fazer é submeter essa gente ao detector de metais quando aparece por aqui [na Casa Branca]”. Mas, infelizmente, o detector de metais não impediu que um de seus filhos, George W. Bush, chegasse a presidência dos EUA.
Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “Venezuela: originalidade e ousadia” (Editora Anita Garibaldi, 3ª edição).
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